12 de março de 2009

Obituário à Minha Almofada Morta (197X - 2009)



Acordou morta numa destas manhãs a almofada que me acompanha desde antes de eu nascer. Descanse em paz!

Abençoada! Trinta e tal anos de usos e desusos e foi sempre resistindo. Só podia ser made in Germany, deutsche Technologie da melhor. Suportou ser esfregada pelas paredes da casa em birras de sono infantis. Fez sestas ao ar livre. Percorreu fronteiras. Levou milhentos remendos e, quando os remendos já não chegavam para sarar as feridas, foi-se tornando uma obra de patchwork. No princípio não podia ser lavada porque a Menina Blonde não suportava o cheiro de almofada lavada. Agora já não podia ser lavada para não se desintegrar. Triste sina.

Ali esteve constante nos pesadelos da noite com lobisomens, nas febres que chamavam a Mãe. Aguentou estóica as convulsões adolescentes, tous les troubles rives adolescentes, e foi confidente fiel dos primeiros enamoramentos e dos sorrisos permanentes de quem descobre outros mundos.

Depois acolheu silenciosamente todas as lágrimas escondidas que se choram em torrentes sem fim na impotência de uma Mãe que morre. Nas noites tenebrosas sem sono, lá esteve velando as réstias de Vida e Esperança em que se desenvolvem as despedidas. E contou acordada todos os minutos, os segundos, os momentos tão longos e tão fugazes da Vida que se segura só mais um instante antes de partir.

Entrou num casamento e saiu dele. Mudou de casa. Mudou de vida. Conheceu os sucessos e os cansaços. Inspirou ideias e delineou planos. Sonhou acordada e a dormir. Leu tantos e tão belos livros. Bebeu café entornado. Dormiu com homens, mulheres e animais de peluche e dos vivos. Teve frio e calor. Despertou nas madrugadas e deixou-se dormir. Acordou estremunhada sem saber em que língua falar. Acordou feliz. Mas agora sucumbiu. Morreu ao cabo de tantos anos de companheirismo e lealdade. A minha almofada, a minha única almofada, morreu e muitas memórias partem com ela para o paraíso das almofadas.

Abençoada! RIP

P.S. - Morreu de causas naturais durante o sono. Uma morte santa, portanto.

11 de março de 2009

Que gaita de país este!

Ouvir hoje o noticiário das 7 de manhã é o suficiente para deixar qualquer alma cristã mal-disposta para o resto do dia (e eu nem sou de grandes más-disposições!).

1. Mas quando é que esta gente vai aprender a jogar contra os alemães? Tristes! Pacóvios e palonsos!
2. E quem foram as inteligências que redigiram o projecto de lei respeitante à violência doméstica?

Bem, deixa-me ir destilar a indignação para outro lado!

9 de março de 2009

Crepes Blonde



Domingo, seis da tarde. Acabo de enviar um capítulo de um livro ao editor em Nancy (de França), tenho o resto de outro livro para rever mas não me apetece nada, mas mesmo nada. Tenho uma dor de costas lastimável das horas ao computador. O meu humor não está dos melhores porque num dia maravilhoso de sol eu só desci do escritório ao jardim para beber um capuccino uns escassos minutos. Que vida, Cristo!

Apetece-me crepes! Que raio de apetite! Eu não ligo a crepes. Eu não sei fazer crepes. Diabo, eu fujo de hidratos de carbono como o dito da Cruz! Acho que a culpa é da Tina que achou por bem aqui há dias desatar a enviar-me sms provocadores sobre uns crepes de camarão que ela fez (raios a partam e mais aqueles dotes culinários!). E não é que continua a apetecer-me crepes?

Lembro-me que a Mãe fazia uns deliciosos. Mas isso era a Mãe e isso já foi há muito, muito tempo.

Pego num livro de receitas. Ingredientes: leite (homessa, eu não bebo leite), manteiga (manteiga?!, eu lá tenho manteiga?), açucar (outra!, e uma Blonde lá usa açucar porventura?). Desisto do livro. Meto-me na despensa e decido inventar.

Crepes Blonde

Para a massa:

1 pacote de natas (o mais parecido com leite que havia)

Umas quantas colheres de açucar Demerara (vá lá, afinal havia açucar)

Farinha de trigo a olho

Maizena a olho (só porque a Mãe misturava Maizena em tudo)

Um cálice de Vinho do Porto (acho que a Mãe fazia os crepes com Vinho do Porto)

Uma pitada de sal fino

Uma colherzinha de fermento em pó

1 ovo (se não fosse a P trazer-me ovos não havia crepes para ninguém)

1 fio de azeite (de Creta que também era o que havia)

Para o recheio:

Passas sultanas

Nozes

Maple syrup canadiano (isto é exactamente o quê em Português?)

Geleia de marmelo (a P apanhou os marmelos aqui do jardim e sem ela também não havia geleia nem marmelada)

Preparação: Bater o ovo com as natas, o Vinho do Porto e o azeite. Juntar a farinho de trigo, a Maizena, o sal, o fermento e o açucar. Misturar bem. Colocar uma frigideira anti-aderente ao lume com um pouco de azeite. Frigir o preparado em forma de crepes (é melhor nem dizer o formato que adquiriram os Crepes Blonde mas serão sempre uma inovação culinária!).

Entretanto, amolecer a geleia em banho-maria. Depois (agora vem a obra-prima, atenção) colocar um crepe e barrar com geleia, sobrepor outro crepe e barrar com maple syrup e assim sucessivamente até se acabarem os crepes. No fim, decorar com sultanas e nozes.

Eu acompanhei com café e comi de faca e garfo comme il faut! Ficaram deliciosos (um pouquinho enjoativos de tanto maple syrup, mas nada que não se corrija em próximas edições).

Damn I'm good!!!!

7 de março de 2009

Dia da Mulher





A 8 de Março celebra-se, como vem sendo hábito, o Dia Internacional da Mulher. Pelas ruas distribuem-se gerberas às senhoras e meninas e produzem-se espectáculos variados e muito palavreado político se debita em torno de tão simpático dia.


Eu, que me considero uma mulher muito feminina, sem que para tal precise ser feminista (que não sou em absoluto), acho este um dia pavorosamente sexista. E mais, abaixo o Dia Internacional da Mulher! Abaixo o paternalismo que invoca leis de paridade para fazer apenas uma coisa: discriminação positiva que, como a própria expressão indica não deixa de ser... claro, discriminação.


É verdade que uma mulher para singrar em campos tradicionalmente masculinos tem de trabalhar mais do que um homem e tem de continuamente demonstrar algo: demonstrar competência, demonstrar força de vontade, demonstrar inteligência e todo o rosário das demonstrações que provem que ela é tão capaz como qualquer espécime masculino. E também não é menos verdade que com carreira, maternidade e afazeres domésticos, as mulheres desmultiplicam-se em muito mais actividades e responsabilidades do que os homens. Tudo isto gera, obviamente, as situações de desvantagem igualitária em que as mulheres se encontram face aos homens. Mas será necessário um Dia da Mulher para sermos confrontadas com os discursos feitos de que as situações de desigualdade entre os sexos têm de desaparecer? É preciso um Dia da Mulher para mais enfatizarmos o facto de que as mulheres ainda não beneficiam das mesmas condições sociais do que os homens?


Sim, acho o Dia Internacional da Mulher uma humilhação, um vexame à condição feminina, uma discriminação, um paternalismo degradante. Não me revejo minimamente. Se no futuro se instituir um Dia Internacional do Homem talvez aí as coisas sejam mais equitativas.

4 de março de 2009

Vicky, Juan António, Oviedo, Barcelona


Porque as Vickies desta Terra podem muito bem ser Blondes, só que as Blondes não acabariam o filme presas na previsibilidade das suas decisões. Porque na Vida há sempre um Oviedo qualquer que nos faz desviar do percurso, inverter a marcha. É nesses Oviedos que, sem querer, nos encontramos connosco ao renegarmos os contrangimentos da racionalidade. E, claro, porque os Juan Antónios andam por aí vivendo o presente sem largar o passado, querendo um e outro, amachucados na inevitabilidade linear do Tempo.
De permeio, existem aquelas morenas fulgurantes para as quais qualquer Blonde olha no êxtase sublimado que pergunta: "Porque é que Deus lhes concedeu aquele exotismo do animal selvagem que nos falta tão gritantemente?" Sim, qualquer Cristina no seu juízo perfeito se deixaria levar pelo hipnotismo de uma Maria Elena.
Vicky, nunca serás feliz com o Mark. Em breve serás uma Judy e, se te faltar a coragem outra vez, desperdiçaste a Vida só para te manteres fiel à tua teimosia que persegue o Certo e o Correcto que te atam. Don't do that, don't go that way.

2 de março de 2009

Guiné das Trevas


Heart of Darkness... Coração de Trevas...

(Joseph Conrad, 1899)


Lembro-me sempre deste livro de cada vez que me lembro de África. Heart of Darkness... Como me soa esta expressão. Coração de Trevas...


Mataram um assassino. Mataram um presidente. Mataram quem declarou independência de uma metrópole colonial. Nunca, mas nunca mesmo, África vai ser um continente de paz. E agora diz-se o quê?


- Lastimamos a morte do presidente de uma nação amiga?


- É uma apena realmente mas... mas o homem era um criminoso?


- Bem feita! Botaram-nos de lá para fora agora aguentem-se?


- Que horror! Lá vai a Guiné-Bissau para a guerra civil?


- Está-se mesmo a ver que a culpa é do passado colonial?


Eu não digo nada! Mas admito que se possa dizer tudo...

1 de março de 2009

Rosa sem Espinho: O Congresso dos Felizes

O que é que será que existe de saboroso e triunfal numa vitória antecipada sem a glória da batalha ideológico-partidária? Mas enfim, há quem se contente...

O momento histórico é favorável: a crise global é um escudo protector muito confortável, uma desculpa para a impotência, uma máscara para o insucesso. A confusão baralhada da oposição um adjuvante tremendo. Que melhores e mais fáceis circunstâncias existirão para vitórias sem luta?

Nunca pensei ver um PS de punho erguido com medo de um juvenil BE. Assusta-me, para ser sincera. E irrita-me. Tal como me assustam e irritam as vitórias só porque sim, só porque o panorama político português actual é um enorme vazio e porque não há escolhas e porque não há ninguém com um brilho que nos catapulte para a esperança.

Valha-nos Deus por um Vital Moreira. Precisamos de mais, de muitos mais. Precisamos de gente pensante, escrevente, falante, em suma, articulada que venha seja lá de que quadrante político for.

Em remate, pergunto-me, fingindo não saber a resposta, o que é que um partido de governo teme da discussão dos temas estruturantes/fracturantes que pairam, tal espada de Dâmocles, na atmosfera política? Felizes os esquecidos dos males pátrios, que deles é o reino parlamentar.