
Acordou morta numa destas manhãs a almofada que me acompanha desde antes de eu nascer. Descanse em paz!
Abençoada! Trinta e tal anos de usos e desusos e foi sempre resistindo. Só podia ser made in Germany, deutsche Technologie da melhor. Suportou ser esfregada pelas paredes da casa em birras de sono infantis. Fez sestas ao ar livre. Percorreu fronteiras. Levou milhentos remendos e, quando os remendos já não chegavam para sarar as feridas, foi-se tornando uma obra de patchwork. No princípio não podia ser lavada porque a Menina Blonde não suportava o cheiro de almofada lavada. Agora já não podia ser lavada para não se desintegrar. Triste sina.
Ali esteve constante nos pesadelos da noite com lobisomens, nas febres que chamavam a Mãe. Aguentou estóica as convulsões adolescentes, tous les troubles rives adolescentes, e foi confidente fiel dos primeiros enamoramentos e dos sorrisos permanentes de quem descobre outros mundos.
Depois acolheu silenciosamente todas as lágrimas escondidas que se choram em torrentes sem fim na impotência de uma Mãe que morre. Nas noites tenebrosas sem sono, lá esteve velando as réstias de Vida e Esperança em que se desenvolvem as despedidas. E contou acordada todos os minutos, os segundos, os momentos tão longos e tão fugazes da Vida que se segura só mais um instante antes de partir.
Entrou num casamento e saiu dele. Mudou de casa. Mudou de vida. Conheceu os sucessos e os cansaços. Inspirou ideias e delineou planos. Sonhou acordada e a dormir. Leu tantos e tão belos livros. Bebeu café entornado. Dormiu com homens, mulheres e animais de peluche e dos vivos. Teve frio e calor. Despertou nas madrugadas e deixou-se dormir. Acordou estremunhada sem saber em que língua falar. Acordou feliz. Mas agora sucumbiu. Morreu ao cabo de tantos anos de companheirismo e lealdade. A minha almofada, a minha única almofada, morreu e muitas memórias partem com ela para o paraíso das almofadas.
Abençoada! RIP
P.S. - Morreu de causas naturais durante o sono. Uma morte santa, portanto.



