21 de fevereiro de 2014

No país da parvoíce

Apesar de dizer que já nada me surpreende neste país, apanho-me sempre em contradição. Avé país das surpresas!
Então as mentes iluminadas decidiram que os meninos do 9º ano têm de realizar um teste diagnóstico obrigatório de Inglês. Certo. O teste é credenciado pelo Cambridge (à falta de melhor, e porque não o Oxford ou o British). Já menos certo. Depois, supostamente, o teste afere o nível B1, competência intermédia de língua para quem não sabe. Certo. Porém, os meninos portugueses do 9º ano serão testados a um nível de 7º ano, portanto não B1. Perdi-me. Ademais, o teste pode ser facultativo para os meninos do 7º ao 12º. Quê? E como é um teste obrigatório, quem quiser o certificado tem de pagá-lo. E depois eu é que me contradigo?
Pergunta estúpida: WTF?!

19 de fevereiro de 2014

Foi só um relâmpago, um temor

Hoje acordei com nada de especial. Só mais um dia de contas e orçamentos e textos e correcções disto e daquilo. Um dia banal. Veio sem ser anunciado. Apareceu de repente. Um ápice e tinha passado. Um ápice e deixou-me a pensar.
Um só segundo e vi a minha vida, vi a vida dos meus pais, vi a vida dos meus avós. Todos humanos. Todos com os sofrimentos que a Vida lhes atirou pela frente. Vi os meus sobrinhos. Meu Deus, que são humanos!
Estou sobressaltada. Como é que encaramos que os nossos filhos não estarão isentos de sofrimento?

17 de fevereiro de 2014

Se me dissessem...

Se há 15 anos, quando eu entrei como professora pelas portas da universidade adentro, me dissessem que os meus dias iam ser preenchidos a elaborar orçamentos, tratar de cronogramas e mapas de pessoal eu não acreditaria.

14 de fevereiro de 2014

Aqui ao longe

Aqui ao longe vejo o país à distância. Como estou sozinha e a escolha televisiva é pouca para amortecer a noite nesta lonjura, engulo o fraco zapping com o comando embrulhado num lenço de papel. Até nas notícias somos fracos. Os estrangeiros que estejam a ver o noticiário português que eu estou a ver devem-se perguntar o que é que a troika cá veio fazer e se era, realmente, necessária. Andamos a comprar mais, a economia está a crescer, os bancos estão a dar mais crédito: wunderbar!, que fica bem dizer estas maravilhas em alemão. Bem, acho que sou eu que estou meio enviesada. Afinal, só há um canal e eu estou cansada.  
Parece que é Dia dos Namorados. Não ligo. Não precisamos disso, pois não? Eu não gosto da lamechice com dia, como não gosto da lamechice, Punkt!, que também fica bem sermos alemães quando dizemos que não gostamos da lamechice.
Acho que vou ler uma revista enquanto aí, no mundo que deixei em suspenso, o resto do mundo celebra o S. Valentim e escolhe canais que, calhando, dizem o mesmo que este aqui: saímos da crise. Sempre estou para ver...

13 de fevereiro de 2014

Acordar com o Império no mail

Fico sempre entusiasmada quando me chegam as provas de um trabalho que vai ser publicado. Hoje acordei e lá estava ele: "War and Imperialism: The Annexation of Egypt" à minha espera.
Enquanto eu estava a crescer, havia duas coisas que me balançavam: o David Attenborough (que ainda me balança como o diabo) e a época dos grandes impérios coloniais (que me balançaram ao ponto de se terem tornado o meu caminho).
Bebia na tela e na televisão a "África Minha", "A Jóia da Coroa", "The Flame Trees of Tikka", "Ghandi", "A Passage to India" e o "Chaka the Zulu"; lia o Kipling, o E. M. Forster e o Conrad e, claro, no plano lúdico adorava tudo o que era Indiana Jones e as King Solomon's Mines. A nível nacional, havia a "Nau Catrineta" com as histórias do Silva Porto e do Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, as travessias de Angola à Contra-Costa e eu era fascinada pelos relatos expedicionários que, para mim, começavam no meu adorado Marco Polo. Cresci.
Algures no caminho decidi juntar tudo. Na hora de decidir Mestrados e Doutoramentos não havia volta a dar: quero o Império, as expedições e as guerras, as batalhas diplomáticas, as aventuras e a cartografia; quero os Livingstones, os Burtons e os Spekes, as nascentes do Nilo e as Montanhas da Lua; quero o Zimbabué, os Matabeles, os Zulus e Isandlwana; e quero o mundo sem fronteiras do Attenborough e dizer-lhe que quero esse mundo (e disse-lho!).
E agora que descomprimi do entusiasmo, deixa-me ir ler as provas... (tenho pena que seja tão difícil e burocrático e custoso publicar neste país, mas enfim, o mundo já está muito internacional e, no paradoxo que possa parecer, somos internacionais porque herdeiros de uma época em que houve os Burtons e os Spekes, os Capelos e os Ivens). 

12 de fevereiro de 2014

Com dois anos de atraso...

Chegou-me ontem mas é de 2012. Copio o texto de Teolinda Gersão tal como me chegou por mail, declarando que só incapazes mentais conseguem fazer à língua portuguesa o que andam a fazer. Já não reconheço a língua que aprendi aos seis...


Redacção «Declaração de Amor à Língua Portuguesa»
 Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia «ele está em casa», «em casa» era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito.«O Quim está na retrete»: «na retrete» é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos «ela é bonita». Bonita é uma característica dela, mas «na retrete» é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.
 
No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um «complemento oblíquo». Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo «complemento oblíquo», já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum, o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento,e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: «Algumas árvores secaram», «algumas» é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.
 
No ano passado se disséssemos «O Zé não foi ao Porto», era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.
 
No ano passado, se disséssemos «A rapariga entrou em casa. Abriu a janela», o sujeito de «abriu a janela» era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?
 
A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer, dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em «ampa», isso mesmo, claro.)
 
Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero. E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve redação. O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impor a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: «Ó João, onde está a tua gramática?» Respondo: «Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito».
 
João Abelhudo, 8º ano, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática.
 

10 de fevereiro de 2014

Viver do trolley e de zapping e ele

É noite cerrada quando abandono o Porto de Honra. Subo ao gabinete a descartar-me da toga. Saio de Lisboa na noite chuvosa que me acompanha até Évora. O fim-de-semana é dado em aulas nessa lonjura. Nova noite e nova partida na chuva oblíqua que continua.
Regresso a casa noite, muito noite. Vivo vampírica de breus porque os dias são uma hibernação hiper-activa. Só tenho ânimo para o nada do zapping: um concerto de George Michael que vi ao vivo, um filme de categoria B que me envergonha gostar e que já vi quinhentas vezes no mínimo e depois ele no National Geographic e ele, em duas séries seguidas, no Odisseia. Vejo-o na viagem que fez quando me escreveu e imagino um cento de coisas que lhe iriam na mente e na vida quando pegou no papel que eu receberia escrito a azul claro permanente.
Assustei-me. Tantos programas no fim-de-semana podem ser sinal de uma notícia que desconheço por viver vampírica. Abro a net e confirmo: ainda não é desta que estou de luto.