30 de junho de 2009

Na ressaca da nostalgia

Acho que foi da chuva inusitada, do aniversário da morte da Mãe, do dia triste no clima, triste na alma. Ou talvez fosse porque este ano em que já não há casamento (graças a mim e aos Céus, ámen) eu ando com mais disponibilidade introspectiva. Não sei. Sei que me lembrei muito da Mãe e invadiu-me uma onda de melancolia pouco habitual em mim, herdeira que me acho da boa-disposição perpétua Dela. Mas, caramba, há dias assim. E o que eu aprendo, é que nas pausas do sofrimento também se vive e se cresce, por vezes mais do que nos momentos da felicidade. É, entendo agora, aquele "dar de beber à dor" cantado pela Amália. Por vezes, precisamos de dar de beber à dor (curioso, como me descubro tão portuguesa, eu que sou tão medularmente alemã), afagá-la, não tomarmos o sentido da fuga. Só assim a perceberemos.

E foi para dar de beber à dor que vim escrever para o blog (esse alter-ego sem o meu nome) o que, de jacto, me ia na alma: as sensações avassaladoras de um passado que eternamente se repercute no presente, uma dor crónica domesticada, controlada, familiar e, por isso, nada medonha, mas que, apesar de tudo, irrompe de vez em quando a precisar de atenção. Escrevi e desliguei. As palavras saíram e eu fechei-me a elas. Já estavam cá fora. A dor bebeu, saciou-se, apaziguou-se para regressar ao confim do coração onde habitualmente reside. Dei-lhe o dia de ontem, fui generosa, maternal, até, no carinho com que a tratei.
Regresso ao blog. Deparo-me com os comentários de gente em lágrimas, gente que afaga a minha dor, que teme a sua, que partilha os receios de um futuro que promete esta mesma dor ou que a revisita num passado de perdas semelhantes. Noto um adjectivo recorrente: "esmagado", verbalizado tanto no masculino como no feminino. Acarinho os comentários: gente que me conhece (e que até conheceu a Mãe), gente que não me imagina, gente que eu conheço sem que haja a reciprocidade do conhecimento, gente que aqui vem pela primeira vez e parou, gente que se habituou a vir aqui (and only God knows why). E sabem o que noto? Que a nossa humanidade primordial é absolutamente transversal. Alegro-me numa sensação tépida por essa transversalidade fascinante e benévola. E noto, ainda, que, como sempre, a Mãe conjura o que de melhor temos e que, de um modo ou de outro, conhecendo-a ou não, o que a Ela se associa é intrinsecamente humano e belo.

29 de junho de 2009

Porque já são 11 anos...

O dia estava lindo. Junho terminava. Pressentia-se o Verão nas roupas esvoaçantes das senhoras, nas bouganvílias cheias de flores, numa Lisboa mais clara pela luz branca estival. Nós os três, o Pai, a Mana, eu, vivíamos numa espécie de bolha transparente: víamos o lado de fora, a vida que segue, os quotidianos das pessoas que passavam por nós, mas não pertencíamos a nada. Foram dias de limbo. O cansaço da esperança era talvez o pior porque não havia esperança. Havia dias em que eu queria aceitar a desesperança mas não tinha coragem. Afinal, de todos nós, a Mãe era imortal. Sempre pensei que eu podia morrer, o Pai, a Mana, mas a Mãe não. Nunca contemplei a sua mortalidade e isso tornava difícil, naqueles dias longos de sol e calor, aceitar que ela estava a partir. Acho até que tudo teria sido mais natural se fosse um de nós a morrer, mas a ironia era que era Ela quem partiria antes de todos, antes de ter tempo sequer para ir embora.



- Mutti, não te prendas por nós. Segue. Vai ser feliz. Não fiques triste se nos vires chorar. Nós somos fortes e tu sabes isso. Adoro-te Mutti linda, mas tens de ir. Não fiques aqui. Não fiques por nós. Sabes que eu olho por eles. Nunca, mas nunca te preocupes. Vai Mãe... Vai...



A Mãe morreu três horas depois de eu ter tido a coragem para deixar o egoísmo de a ter aqui. Levei tantos dias a mentalizar-me que deveria ter esta conversa com ela. Todos os dias eu entrava naquele quarto e todos os dias eu pensava que teria de deixá-la ir. O Pai e a Mana não entravam. A Mãe jorrava Amor e jovialidade, aquela graça natural que nos deixava presos num encantamento, não importava se fôssemos humanos ou animais, pequenos, grandes, todos nos apaixonávamos por Ela. E era por isso, talvez, que o Pai e a Mana não entravam naquele quarto nos últimos dias em que Mãe esteve nesta Terra. Não a queriam contemplar naquela vida sem vida. Ficavam à espera as horas que eu estivesse com ela lá dentro do quarto. E eu ali ficava a olhar para ela. Cheirava-lhe a pele doce e morna e pedia a Deus para nunca me esquecer daquele cheiro.
Naquele dia, depois de várias horas a lutar contra mim, decidi falar-lhe. Tive tanto medo. Tão pouca coragem. Sabia que nunca mais ia sentir aquele cheiro e aquele calor que a envolviam num halo de Vida. Pensava que a despedida invocasse palavras grandiosas mas só me saíram frases curtas, banais. Que guiões existem que nos digam o que dizer na última vez que estamos junto do Ser que mais amamos? O que é que se diz quando tudo é derradeiro na mortalidade e não há regresso? E depois, depois eu já lhe tinha dito tudo quando falávamos horas esquecidas em tardes longas sem fim. Era tão bom falar com Ela.
A Mãe tinha aquele intelecto fino, desenvolto que lhe permitia a abstracção mental e podíamos falar horas a fio de Teologia e Cosmologia, da finitude e do infinito. Desde que Ela morreu nunca mais tive conversas destas com ninguém. Ninguém fala com aquele nível de profundidade. E que saudades eu tenho dessas conversas... Também lhe disse muitas vezes que a amava e agradeci-lhe sempre ter-me dado a Mana. Não ficaram palavras por dizer, sentimentos não verbalizados. Daí a despedida ter tão pouco para dizer.
Quando o telefone tocou, eu já sabia. Não foram precisas palavras para dizer ao Pai ou à Mana. Dentro de mim fiquei contente: agora eu poderia voltar a falar com a Mãe sem estar naquela incerteza humana se os estados de coma superficial permitem a audição. Agora eu tinha a certeza de que na incorporalidade Ela me ouvia. Ela, que me ensinou esta língua nos versos do Pessoa e que me falava em alemão tantas vezes, agora ouvia-me.
Peguei na água de colónia que ela toda a vida usou, 4711, dois pares de sapatos, duas mudas de roupa, uma em rosa outra em azul, e no estojo da maquilhagem dela. Fui ter com Ela à morgue onde a depositariam. Eu jamais permitiria que Ela estivesse lá sózinha, tratada por estranhos, gente que desconhecia quem era Ela e a sua imensa capacidade de amar. Na minha voz calma e determinada deixaram-me entrar.

- Por favor, é a minha Mãe que aí está. Falo com o Director ou com quem for preciso. Não faço cenas. Mas deixe-me entrar, por favor.

Tiraram-na de uma gaveta grande na parede. Fiquei aliviada por não a ter encontrado naquele corpo de olhar vítreo. Estava tão gelada a pele dela. Não cheirava a nada. Ela já ali não morava e eu fiquei feliz por isso. Perfumei-a. Penteei-a. Escolhi o vestido azul às flores que lhe ficava tão bem naquele cabelo louro de veludo, calcei-lhe os sapatos beige. Dei-lhe um beijo na testa e sussurei-lhe ao ouvido o refrão de uma canção do Freddy Mercury que ela adorava: "The show must go on". The show must go on, Mutti.
Depois pedi que a depositassem na urna. Fizeram-no com tanto respeito, tanto esmero, em silêncio. Pedi que fechassem o caixão. Só eu a veria sem vida, sem a sua joie de vivre. Não poderia deixar que o Pai e a Mana a vissem a dormir sem estar a dormir. O Pai não aguentaria e a Mana era tão novinha para ser confrontada com imagens que nunca mais seriam apagadas, tão novinha.
No ano passado, e somente no ano passado, a Mana disse-me que teve com a Mãe a mesma conversa que eu tive uma semana antes da minha coragem para me despedir. Quando ela me divulgou aquilo, senti uma sombra percorrer-me a alma: a Mãe esperou que eu me despedisse, a Mãe viveu na vida sem vida até eu me despedir. Acredito na eternidade do Amor, na força incomensurável do Amor, o Amor que tudo pode, que tudo vence.

Hoje chove e eu estou melancólica. Meto em palavras as saudades que vivem comigo a cada segundo desde aquele dia soalheiro de Junho. Tenho tantas saudades...

28 de junho de 2009

Blonde e Breadmachine - A Saga Continua...

E como não há Blonde que se preze que não seja persistente, esta querida lá decidiu que não haveria de ser uma máquina que iria ter a última palavra na cozinha. Isso é que era doce!
Escolhida nova receita e eis que a Sra. Dona Blonde prepara a máquina e lá coloca, muito cuidadosamente (quase a medo, diga-se em bom rigor), os ingredientes necessários. Tudo feito com atenção e esmero para não chatear a máquina de antemão. Selecciona-se o programa, carrega-se no botão "on" e a Sra. Dona Blonde suspira de alívio: "Esta fase foi vencida" e vai tratar de outros assuntos deixando a máquina entretida nos seus.
Eis senão o seu espanto quando, dali a bocado, de regresso à cozinha para inspeccionar o trabalho da padeira temperamental, a primeira coisa que vê, imóvel e sossegada, no escorredor da loiça é... a pá de amassar da máquina!
Agora digam-me como é possível? Como é que eu não me lembrei de verificar se tinha posto tudo, mas mesmo tudo, dentro da máquina? E porque é que o fabricante se lembrou de fazer uma pá amovível? Com mil diabos!
Andava eu, por estes dias, tão contentinha que até inventava umas receitinhas gostosas que, pasme-se, até ficavam bem (tão bem que iam parar ao blog) e eis que a síndrome da Desperate Housewife regressa em mais uma revoada. Não há direito!
Amuei!

27 de junho de 2009

Blonde Next Portuguese Idol - The Sequel

E a pedido de inúmeras famílias cá vai o resultado das cantorias da Blonde: soprano (mas não estou nada convencida!). Eu acho que cantei em contralto só que o maestro lá achou que não e quem sou eu para contradizer o maestro? Então eu, que canto registos agudos em falsete e escolhi uma canção para não falsear uma nota, vou para soprano? Não, não estou convencida!
Mas pronto, lá fui recrutada. Só não sei ainda se me apetece muito investir em cantorias e ir re-estudar os meus antigos livros de música. É que, agora, olho para uma pauta e levo eternidades a ler uma linha (ok, lá vejo o compasso, a clave e esses básicos, agora ler, ler é que é tramado - chego a contar as notas pelos dedos, ridículo!). Enfim, a ver vamos... (pior do que as minhas aulas de sax-alto não vai ser, de certeza).

25 de junho de 2009

A minha bread machine


Prometia-me pão fresco sempre que eu quisesse, delicioso, com iogurte, com frutos secos e cereais vários, branco ou integral, mais claro ou mais escuro. Era o prometias!
Lá fui feliz e contente comprar a máquina de fazer pão. Toda a gente agora tem máquinas destas. Maravilhosas! Fazem tudo sózinhas e até trabalham de noite para a malta acordar com pãozinho fresco para o pequeno-almoço. Eu até já mexi numa, na casa da Zana: fui eu que liguei o botão on (afinal, a tarefa mais importante do processo) e o pão saíu um encanto. Pois é, acho que a minha máquina tem uma personalidade própria e ainda não nos entendemos as duas. Estamos em guerra: as duas alemãs (imagino-a loura também), e as duas genientas.
No primeiro dia fiz a mesmíssima receita que a Zana e eu fizémos: pão com flocos de aveia. Segui as instruções à risca, refreei o meu apurado sentido inventivo, programei tudo certinho. E o que é que a minha cara amiga me entregou? Um pão abaulado no meio e todo mal cozido.
Eu, de facto, devia ter estranhado quando, bem a meio da noite, acordei com um agradável aroma de pão acabadinho de cozer. Cheirava tão bem que eu acordei, vejam só! Deixei a nossa caríssima entretida a trabalhar na cozinha, que é no rés-do-chão, e subi para dormir. Ora, se no meu quarto, às seis da manhã, eu acordo porque me cheira bestialmente bem a pão fresco, é porque a querida máquina deveria ser uma padeira de mão cheia, não?
Qual quê! Vingou-se, a tipa! Eu a dormir e ela a trabalhar deve tê-la irritado até à medula dos genes alemães.
Na segunda tentativa dei-me ares de inventora. Se com as instruções escrupulosamente seguidas a coisa não funcionou, talvez com um pouco de criatividade se obtivesse o tal do pão delicioso. Triste engano!
Inventei um pão de cebola que é um hit entre as receitas de pão de máquina. Para o efeito, juntei um pacote de sopa de cebola em pó, farinha de trigo 150 e farinha de trigo 65, uma colher de mel e o trivial: água, fermento, sal e açúcar louro. E eis que em cima da mesa da cozinha tenho agora uma coisa rectangular parecida com um tijolo de lareira. Tem um buraco no meio estilo caverna e, novamente, ficou uma pasta mal cozida, daquela que dá para moldar em bolinhas.
Acho que vou ter de ter uma conversinha muito séria com a cara amiga. Dizer-lhe umas verdades e explicar-lhe que na casa da Blonde manda a Blonde (ok, por vezes, manda o Spotty), mas, mais que não seja, na cozinha da Blonde manda a Blonde e ponto final. Já viram isto, uma máquina com personalidade?!
Posto isto, vou comprar pão!

23 de junho de 2009

A data das eleições


Já não aguento a discussão em torno da data dos próximos actos eleitorais. Percebo a necessidade de consensos e a marcação de uma data o menos intrusiva possível na vida das pessoas, daí concordar que agendamentos próximos de férias e feriados são as opções mais logicamente descartáveis.
O que não entendo é esta coisa surpreendente de termos em poucas semanas dois actos eleitorais. Explico:
a). Os políticos cansam-se de louvar a maturidade eleitoral dos portugueses; que sabem escolher mudanças, que são lúcidos o suficiente para mostrar cartões vermelhos aos governos; que vivem numa democracia consolidada e outras loas que tais. Pergunto-me se esses mesmos políticos ainda não se deram conta de estarem a passar atestados de ignorância e puerilidade a esse eleitorado que tanto louvam ao pensarem que os mesmos são incapazes de discernir legislativas de autárquicas ao ponto de as coisas terem de ser bem separadas (convenhamos, é que nem nós as louras naturais deste regime contemporâneo misturamos as coisas).
b). Duas datas díspares para autárquicas e legislativas implicam que nós, o tal eleitorado esclarecido, vai "gramar" campanhas eleitorais "ad nausea". E isto significa sermos confrontados, por um tempo dolorosamente longo, com os cartazes feios, inestéticos, desprovidos de todo o sentido de design que inundam o nosso campo visual em rotundas, praças, bermas de auto-estradas, outdoors que nascem como cogumelos de Outono por todo o lado que é lado.
c). Se, tipicamente, o eleitor vota por partido, será que há assim tanta hipótese estatística de mudanças de opinião entre um acto eleitoral e o outro?
d). Por fim, há o papão-mor da abstenção. E, se, em anos em que somos confrontados uma vez só com o votar como direito cívico, votar como dever, já a afluência às urnas (deuses como amo esta expressão) é deficitária, imagine-se num ano em que nos arrastamos enfastiadamente não uma, não duas mas três vezes aos nossos locais de voto (da última vez fiz, à pressa, 200 kms para ir colocar uma cruz num partido que estava pseudo-morto nas sondagens - não sei se me apeteceria repetir a proeza mais vezes, caso me encontrasse outra vez longe da minha assembleia de voto, tenho pouca apetência para Cristo ressuscitador).
E com estas conjecturas (de uma mente loura, logo naturalmente dotada para o fracasso das ideias), penso que os nossos políticos gostam mesmo é da tribuna eleitoral, um bom comício, uma boa feira com muitos beijinhos à mistura, muita distribuição de bandeirola, muito encontro com o Povo, dias soalheiros de romarias, festas e foguetes. De tal sorte que, muitas datas de eleições, muitos Domingos de emissões especiais nas TVs, muito trabalho para as empresas de sondagens, nos alegram o dia-a-dia e nos dão a noção de um país politicamente vibrante. Sinceramente? Acho deprimente o espectáculo político que me é dado ver por estes dias.

22 de junho de 2009

Sempre as Louras...


Não resisto:
Luís Filipe Menezes no "i" de Sábado sobre Pacheco Pereira ser "a loira do regime":
"É evidente que a loira do regime é sempre má actriz. Quando se lhe dá um papel importante dá sempre para o torto - mas esteticamente é fantástica."
Não hei-de eu gozar com as loiras? Ah, mas esperem lá, eu sou loira. Eu gozo comigo e com as congéneres. Deixa de ter piada quando o estereótipo se generaliza.