Em princípios de Maio lembrei-me da minha aliança. O divórcio arrastava-se há quase seis anos sem fim à vista. Gosto de jóias e não me desfaço delas mesmo que me sejam desagradáveis na memória como era o caso desta aliança que, em tempos, mandei fazer, como mando fazer grande parte das jóias que não me chegaram por herança ou presente.
Ouro amarelo com embutidos de esmalte azul foi a aliança da noiva que fui num passado distante. Em princípios de Maio decidi dar-lhe nova vida. Mandei parti-la, como partido estava o que ela significava, e, na junção, mandei pôr uma pedra de lápis-lazuli para dar com o esmalte. Mandei também apagar a inscrição que a ligava ao passado.
Dei a encomenda a fazer e parti para Paris. Quando regresso, o ourives encontra-me casualmente na rua e diz que já cortou a aliança e que só lhe falta escolher a pedra. Por coincidência, assim que chego a casa tenho um mail do tribunal, o mail que poria fim a seis anos de peleja na justiça e que me libertaria. Penso na coincidência da aliança partida e da resolução do divórcio. Não acredito neste tipo de coincidência cósmica mas que aconteceu, aconteceu e não deixo de imaginar o eterno "e se...": e se eu tivesse mandado partir a aliança logo em 2008? Não vale a pensa pensar.
Fui buscá-la hoje e baptizei-a de imediato "Unwedding Ring". Vou usá-la orgulhosa como símbolo de libertação e de resiliência. A aliança que se transformou em jóia, em anel único e vivido. Deixei de ter uma aliança, passei a ter mais um anel na colecção. Estou feliz. E aliviada.
31 de julho de 2014
30 de julho de 2014
27 de julho de 2014
Paixão por hera
Tenho uma paixão assolapada por hera: hera nos muros, hera nas casas, hera, enfim. No final de Agosto, a Casa vai ser pintada e a hera é sempre uma dor de cabeça porque há duas empenas que estão forradas dela (ontem veio cá a jardineira e teve de lhe dar um desbastezinho).
- Ó Dona Blonde e o que quer fazer às paredes com a hera?
- Nada.
- Nada?! Então e como é que pintamos?
- Não pintam.
- Não pintamos?
- Não.
O que é que hei-de fazer? Bem sei que hera não é muito saudável para paredes. Mas eu amo paredes cobertas de hera. Aliás, eu amo paredes vegetais.
À conta da preparação para as pinturas, a bougainvília ontem também sofreu um desbaste que valah-me Cristo. Mas enfim, essa cresce mais depressa do que a hera e para o ano que vem já deve chegar a meio da parede.
Graças a Deus que pinturas destas são só de vinte em vinte anos. Depois disto posso descansar duas décadas mais as minhas trepadeiras...
- Ó Dona Blonde e o que quer fazer às paredes com a hera?
- Nada.
- Nada?! Então e como é que pintamos?
- Não pintam.
- Não pintamos?
- Não.
O que é que hei-de fazer? Bem sei que hera não é muito saudável para paredes. Mas eu amo paredes cobertas de hera. Aliás, eu amo paredes vegetais.
À conta da preparação para as pinturas, a bougainvília ontem também sofreu um desbaste que valah-me Cristo. Mas enfim, essa cresce mais depressa do que a hera e para o ano que vem já deve chegar a meio da parede.
Graças a Deus que pinturas destas são só de vinte em vinte anos. Depois disto posso descansar duas décadas mais as minhas trepadeiras...
25 de julho de 2014
Em dias assim
Em dias assim, que não sei porquê sabe-me sempre melhor dizer "on days like this", uma pessoa sai de casa neste campo, que é campo longe de mar, e cheira-lhe a maresia na manhã fresca e céu carregado de água.
Em dias assim gosto tanto do ar pleno de mar.
Em dias assim gosto tanto do ar pleno de mar.
23 de julho de 2014
Tradução de mim
Não costumo fazer traduções. O que quer que tenha para escrever escrevo na língua em que tiver de escrever. Só que agora a Vida colocou-me um desafio: traduzir o que o meu pensamento debitou para uma das línguas em que penso e falo para a outra língua em que penso e falo. Ora, isto é tão engraçado como difícil.
Quando uma pessoa é equilíngue não há tradução na cabeça. Se é para escrever em Inglês, a cabeça está em Inglês e o texto sai numa matriz anglófona. Se é para escrever em Português, a cabeça está em Português e o texto sai na lusitanidade da língua. A coisa muda de figura quando temos de traduzir um original que pensámos numa língua para a outra.
Descubro um redobrado respeito pelos tradutores e não sei como fazem para ultrapassarem as barreiras culturais da(s) língua(s). E também percebo porque é que me é tão penoso ler traduções e porque é que tradução é reescrita, por um lado, e perda por outro.
Seja como for, acho que não conseguiria dar textos meus para traduzir porque só eu sei o que vai na minha cabeça e só eu sei como é que uma língua pode dizer o quero dizer na outra. Enfim, estou aqui ainda na perplexidade de ter de traduzir um texto meu para outra das minhas línguas. As coisas que descubro... Sim, estou meia zonza de perplexidade.
Quando uma pessoa é equilíngue não há tradução na cabeça. Se é para escrever em Inglês, a cabeça está em Inglês e o texto sai numa matriz anglófona. Se é para escrever em Português, a cabeça está em Português e o texto sai na lusitanidade da língua. A coisa muda de figura quando temos de traduzir um original que pensámos numa língua para a outra.
Descubro um redobrado respeito pelos tradutores e não sei como fazem para ultrapassarem as barreiras culturais da(s) língua(s). E também percebo porque é que me é tão penoso ler traduções e porque é que tradução é reescrita, por um lado, e perda por outro.
Seja como for, acho que não conseguiria dar textos meus para traduzir porque só eu sei o que vai na minha cabeça e só eu sei como é que uma língua pode dizer o quero dizer na outra. Enfim, estou aqui ainda na perplexidade de ter de traduzir um texto meu para outra das minhas línguas. As coisas que descubro... Sim, estou meia zonza de perplexidade.
21 de julho de 2014
Super-Tia-mãe e farras campestres
Ainda não me tinha estreado a levar os meus sobrinhos a festanças e grandes socializações. Aconteceu que tinha um convite para uma bela de uma churrascada neste fim-de-semana e, por coincidência, os meus sobrinhos vinham cá para casa passar estes dias. E não é que a Super-Tia-mãe conseguiu levar miúdos e tralhas à festa? Estou tão orgulhosa do feito!
O pingente de três anos assim que chegou misturou-se logo na festa e, havendo animais por perto (afinal isto é Green Acres), ainda melhor se ambientou. A pingente de um ano andou de colo em colo, com preferência para colinho masculino (a esperta, hein?!) e a Tia que se secundarizasse porque festa é festa e muito colo é sempre bom.
Ainda não tinha vivenciado os meus sobrinhos em contextos fora da minha casa. Gostei. Agradeço-lhes cada novo capítulo que abrem na minha vida e o que me enriquecem enquanto pessoa com capacidade de amar. E a cada dia me espanto com a diferença que duas crianças fazem numa vida...
O pingente de três anos assim que chegou misturou-se logo na festa e, havendo animais por perto (afinal isto é Green Acres), ainda melhor se ambientou. A pingente de um ano andou de colo em colo, com preferência para colinho masculino (a esperta, hein?!) e a Tia que se secundarizasse porque festa é festa e muito colo é sempre bom.
Ainda não tinha vivenciado os meus sobrinhos em contextos fora da minha casa. Gostei. Agradeço-lhes cada novo capítulo que abrem na minha vida e o que me enriquecem enquanto pessoa com capacidade de amar. E a cada dia me espanto com a diferença que duas crianças fazem numa vida...
18 de julho de 2014
Limões e o Senhor Meu Pai
O Senhor Meu Pai acha, e com justa e justificada razão, que eu ainda tenho um longo, quiçá infrutífero, percurso até chegar a saber umas coisas sobre agriculturas, jardinagens e todos os seus correlativos. Assim, o Senhor Meu Pai acha sempre, e talvez com justa e justificada razão, que eu tenho perpetuamente o jardim numa miséria e que quem me toma conta do dito (dada a minha gritante incapacidade) também percebe tanto ou menos do que eu sobre coisas campestres.
Vai daí, de vez em quando, o Senhor Meu Pai toma-se de ímpetos e aparece-me por cá com fúrias de poda (normalmente não lhe dá doutras mas poda é-lhe irresistível). No ano passado desbastou o limoeiro de tal maneira que este ano o coitadito, em vez de produzir limões normais (dos do tamanho de uma coisa insignificante a meio da foto), desfaz-se na produção de umas bizarmas gigantescas que nem sequer me cabem no espremedor. Ele há prodígios: uns chamam-se Senhor Meu Pai, outros fazem limonada.
Mein Vati...
Vai daí, de vez em quando, o Senhor Meu Pai toma-se de ímpetos e aparece-me por cá com fúrias de poda (normalmente não lhe dá doutras mas poda é-lhe irresistível). No ano passado desbastou o limoeiro de tal maneira que este ano o coitadito, em vez de produzir limões normais (dos do tamanho de uma coisa insignificante a meio da foto), desfaz-se na produção de umas bizarmas gigantescas que nem sequer me cabem no espremedor. Ele há prodígios: uns chamam-se Senhor Meu Pai, outros fazem limonada.
Mein Vati...
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