Morreu-me quem tão bom me foi. Salvou-me e levarei essa gratidão quando, por minha vez, morrer.
Tinha 78 anos quando decidiu patrocinar o meu inclemente divórcio. Durante quatro anos instruiu dois processos, deu-me a voz que a justiça me amordaçava, representou-me, nunca me deixou só e, sobretudo, nunca cedeu e nunca teve medo. Chorei muitas vezes ao pé dele, apunhalada que estava pela justiça, refém que estava de gente má. Dava-me coragem e dele aprendi que uma coisa é a Justiça, outra o Direito e que uma e outro nem sempre se encontram porque uma e outra são coisas diferentes.
Era agreste, temível e temido. Não era o tipo de homem que gera simpatias e amizades fáceis. Ouvi dizer dele que era espinhoso e impossível. Acredito. Mas para mim era mel. Vinha trazer-me carradas de lenha a casa com medo que eu passasse frio. Trazia-me queijo e cerejas e pão da sua quinta nortenha com medo que eu passasse fome. Dizia para me distrair que era muito nova. Queria-me acompanhada porque lhe doía que estivesse só. Dava-me o interior do passeio como um cavalheiro. Mesmo que eu o convidasse era ele que pagava porque jamais admitira que uma senhora pagasse fosse o que fosse ao pé dele e eu não seria excepção por muito nova e moderna que fosse. Falava o Português antigo que eu sempre ouvi da minha Mãe e que não ouvi muito tempo porque dela não foram longos os anos. Era meu amigo.
Quando fez 82 disse-lhe que não podia mais pedir-lhe o esforço de me patrocinar, que não era justo, que eu não lhe podia fazer aquilo e fazê-lo continuar a passar por aquilo. Recusou. Ajoelhei-me à frente dele no gabinete e implorei que me me deixasse libertá-lo daquele fardo. Recusou mas aceitou só para não me ver implorar. A contra-gosto assinou os papéis que me faziam transitar de advogado e disse que estaria ali a zelar por mim e pelos meus interesses. Pedi-lhe a conta dos honorários e recusou, que não saberia o que me levar e que não havia conta nenhuma a ajustar.
Três anos depois, o meu infame divórcio concretizou-se, a meu favor como ele vaticinara e como ele preparara. Devo-lhe a liberdade. A felicidade em que hoje vivo devo-lha.
Era e foi e será sempre no meu coração meu amigo. Meu bom e querido amigo...
Descanse em paz, Dr. Eduardo. Descanse em paz.
27 de janeiro de 2016
25 de janeiro de 2016
No país do nosso Beppe Grillo
E a vida continua igual a si própria, sem sobressaltos, sem inesperados. Apenas o sorriso de quem vê ao longe, Rans ser metido no mapa. Os ingleses chamam a isto "comic relief" que tanta falta faz sempre numa boa tragédia.
21 de janeiro de 2016
Super aniversário
Estando melhor, ainda não reactivei as rotinas de sempre. Acordo para um dia sem história, sem planos e sem programas. 20 de Janeiro é um dia baço: o Inverno a meio, as Festas já passaram, não há sol, nem feriados, nem férias, nem nada que o anime. Para a história é apenas o dia em que, de 4 em 4 anos, o Presidente dos EUA toma posse. Mas é o dia em que eu escolhi nascer, lá longe, num sítio de gelo e neve e dias ainda mais baços.
Não sei que circunstância cósmica benévola fez com que um dia desplaneado se animasse daquela maneira. Pessoas, ramos de flores, bolos surpresa, festa surpresa, presentes e mais presentes, abraços, beijos, saudades que me apareceram à porta a dizer olá, o telefone em contínua hora de ponta, miúdos animados que cantam parabéns e happy birthday, tecnologias de som e imagem que nos aproximam. Que feliz, feliz 20 de Janeiro...
Obrigada!
Não sei que circunstância cósmica benévola fez com que um dia desplaneado se animasse daquela maneira. Pessoas, ramos de flores, bolos surpresa, festa surpresa, presentes e mais presentes, abraços, beijos, saudades que me apareceram à porta a dizer olá, o telefone em contínua hora de ponta, miúdos animados que cantam parabéns e happy birthday, tecnologias de som e imagem que nos aproximam. Que feliz, feliz 20 de Janeiro...
Obrigada!
17 de janeiro de 2016
Aqui ainda é Natal
O que entrar o ano em bolandas de hospital tem é que aqui em casa ainda está o Natal montado e como, à conta das ditas bolandas, ainda não fiz os jantares de Natal para os amigos (sim, que por aqui a tradição continua a ser o que era), quer dizer que vai haver Natal, pelo menos, até Fevereiro. Donde se comprava o adágio sábio que o Natal é quando uma mulher quiser...
11 de janeiro de 2016
8 de janeiro de 2016
E não é que ia morrendo?!
Deixo o ano com um post de alegria paradoxal em que me afirmo livre, tão livre que até posso morrer. E não é que ia mesmo experimentando esse estado não-vivo?! Mas enfim, pelo menos teria morrido LIVRE.
A coisa veio súbita e aguda pois que não se tratou de doença. Foi mais ou menos ao estilo do proverbial "shit happens", só que com o twist de it happened to me. Recorri logo ao sistema de saúde privado que eu cá bem oiço as notícias e não me apetecia, nem podia, tolerar infames esperas de horas no infame Sistema Nacional de Saúde. Cenas intravenosas e vá para casa que vamos marcar cirurgia para a semana. Certo. Só que coisas súbitas costumam não querer saber de agendamentos entre senhores doutores, clínicas privadas e senhoras Blondes PhD com vidas muito ocupadas.
O súbito era agudíssimo e eis-me em urgência no infame SNS.
Pois sim... Só tive o melhor cirurgião do mundo e arredores. Não estive em esperas e só encontrei simpatia e bons profissionais. Dizem-me que tive sorte, que o SNS é uma lotaria. Acredito, pelo que vi naqueles corredores. Por uma vez na vida, vi que os meus impostos serviram-me um propósito mas ainda há tanto que fazer com os impostos que pagamos que não seja BESs, BANIFs, PPPs e outras aberrações que não salvam vidas...
A coisa veio súbita e aguda pois que não se tratou de doença. Foi mais ou menos ao estilo do proverbial "shit happens", só que com o twist de it happened to me. Recorri logo ao sistema de saúde privado que eu cá bem oiço as notícias e não me apetecia, nem podia, tolerar infames esperas de horas no infame Sistema Nacional de Saúde. Cenas intravenosas e vá para casa que vamos marcar cirurgia para a semana. Certo. Só que coisas súbitas costumam não querer saber de agendamentos entre senhores doutores, clínicas privadas e senhoras Blondes PhD com vidas muito ocupadas.
O súbito era agudíssimo e eis-me em urgência no infame SNS.
Pois sim... Só tive o melhor cirurgião do mundo e arredores. Não estive em esperas e só encontrei simpatia e bons profissionais. Dizem-me que tive sorte, que o SNS é uma lotaria. Acredito, pelo que vi naqueles corredores. Por uma vez na vida, vi que os meus impostos serviram-me um propósito mas ainda há tanto que fazer com os impostos que pagamos que não seja BESs, BANIFs, PPPs e outras aberrações que não salvam vidas...
31 de dezembro de 2015
Ano Velho 2015: LIBERDADE para morrer
Durante os seis anos que durou o meu infame divórcio pensei muitas vezes nos seis anos que passámos com o monstro da doença nesta Casa. Comparava a minha falta de liberdade com a falta da saúde e nunca cheguei a uma conclusão definitiva sobre se é pior o tolhimento da liberdade ou a presença da doença. Claro que, para mim, a morte da Mãe é incomparável a qualquer outro sofrimento. Nunca nada me foi ou é tão penoso, tão duro e dilacerante mas isso é porque, parece-me, nós sofremos sempre mais pelos que amamos do que por nós pelo o nosso sofrimento pessoal.
Quantas vezes pedi que fosse possível trocar de lugar com Ela e mitigá-La àquilo? Qualquer morte minha que A salvasse ser-me-ia doce e acolhida em alegria. O sofrimento por amor é incomparável e no meu divórcio eu não sofri por amor. A maldade era-me dirigida, a injustiça era comigo, a guerra era-me e a dor por nós próprios, ainda que tremenda, não nos esfarrapa o coração como a dor pelos que mais amamos. Porém, pensava eu muitas vezes, nessa comparação que tentava apurar se é a falta de saúde ou a falta de liberdade o que mais nos custa suportar, se a doença é vivida em liberdade, podemos morrer em paz. Ao invés, sem liberdade e justiça feita, não nos podemos dar à morte. E era isso que eu sentia, além de tudo o que me faltava em termos do usufruto da minha liberdade, eu tinha de viver por muito que me custasse ( e custou-me tantas vezes). Eu não podia ter nada que me matasse ou de que eu morresse porque isso seria incrementar a injustiça. Testamentei-me mas um casamento não-desfeito na lei nunca me podia dar a liberdade plena das minhas últimas vontades. Os meus herdeiros justos iriam para os tribunais como para os tribunais iria o meu herdeiro injusto. Eu daria voltas no túmulo por saber que deixava coisas incompletas. Não teria o descanso eterno, vivendo uma imortalidade de raiva sabendo que a injustiça tinha prevalecido sobre a minha Verdade, que era e foi a Verdade mesmo que esta seja uma coisa dúplice. Morreria no ódio e isso não é bom.
O meu divórcio ensinou-me, como nos ensinam todas as experiências que por Aqui passamos, que a liberdade e a justiça são bens fundamentais à vida do ser humano. Entendi os presos por consciência, os injustiçados, os martirizados. Rezei por todos, queimei holocaustos pela liberdade e pela justiça, já não as minhas, mas pela Liberdade e pela Justiça como valores supra-individuais.
Costumo sempre escrever os meus pensamentos de fim de ano, as ocorrências que me marcaram e que me moldaram a vida nos 365 dias anteriores. Em 2015, uma única coisa se sobrepõe a tudo o que vivi: LIBERDADE.
A Liberdade traz-nos acréscimos à vida na forma de felicidade(s). Os meus projectos de vida podem acontecer, posso desejar sem estar refém, posso... Posso fazer o que me apetecer sem medo, posso... Posso até morrer que ficaria tudo bem. E só quem esteve preso sabe o que isto é...
Feliz 2016! Liberdade! Justiça!
Quantas vezes pedi que fosse possível trocar de lugar com Ela e mitigá-La àquilo? Qualquer morte minha que A salvasse ser-me-ia doce e acolhida em alegria. O sofrimento por amor é incomparável e no meu divórcio eu não sofri por amor. A maldade era-me dirigida, a injustiça era comigo, a guerra era-me e a dor por nós próprios, ainda que tremenda, não nos esfarrapa o coração como a dor pelos que mais amamos. Porém, pensava eu muitas vezes, nessa comparação que tentava apurar se é a falta de saúde ou a falta de liberdade o que mais nos custa suportar, se a doença é vivida em liberdade, podemos morrer em paz. Ao invés, sem liberdade e justiça feita, não nos podemos dar à morte. E era isso que eu sentia, além de tudo o que me faltava em termos do usufruto da minha liberdade, eu tinha de viver por muito que me custasse ( e custou-me tantas vezes). Eu não podia ter nada que me matasse ou de que eu morresse porque isso seria incrementar a injustiça. Testamentei-me mas um casamento não-desfeito na lei nunca me podia dar a liberdade plena das minhas últimas vontades. Os meus herdeiros justos iriam para os tribunais como para os tribunais iria o meu herdeiro injusto. Eu daria voltas no túmulo por saber que deixava coisas incompletas. Não teria o descanso eterno, vivendo uma imortalidade de raiva sabendo que a injustiça tinha prevalecido sobre a minha Verdade, que era e foi a Verdade mesmo que esta seja uma coisa dúplice. Morreria no ódio e isso não é bom.
O meu divórcio ensinou-me, como nos ensinam todas as experiências que por Aqui passamos, que a liberdade e a justiça são bens fundamentais à vida do ser humano. Entendi os presos por consciência, os injustiçados, os martirizados. Rezei por todos, queimei holocaustos pela liberdade e pela justiça, já não as minhas, mas pela Liberdade e pela Justiça como valores supra-individuais.
Costumo sempre escrever os meus pensamentos de fim de ano, as ocorrências que me marcaram e que me moldaram a vida nos 365 dias anteriores. Em 2015, uma única coisa se sobrepõe a tudo o que vivi: LIBERDADE.
A Liberdade traz-nos acréscimos à vida na forma de felicidade(s). Os meus projectos de vida podem acontecer, posso desejar sem estar refém, posso... Posso fazer o que me apetecer sem medo, posso... Posso até morrer que ficaria tudo bem. E só quem esteve preso sabe o que isto é...
Feliz 2016! Liberdade! Justiça!
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