11 de julho de 2018

E, por fim, a comida

Nenhuma ode a um país, nenhum périplo relatado está completo sem uma alusão à gastronomia local, típica e única. Aqui na Baviera sejamos temerários e enveredemos por uma de experimentalismo. Se a língua é (como costuma ser por estas partes) um obstáculo, peguemos num menu e escolhamos o mais impronunciável que lá encontremos. Lembro-me de fazer isso quando para aqui vim estudar. Nem sempre me dei bem mas, pelo menos, aventurei-me e só isso é um triunfo da alma viajante. Lembro-me de ir um dia à cantina da faculdade e olhar embasbacada para a lista de pratos que havia para o almoço. Os meus colegas foram para as coisas identificáveis. Eu fui para o que me pareceu a coisa mais exótica: Pflaumenauflauf. Tirei pelo sentido que, como Pflaum significa ameixa, a coisa deveria ser algo como carne de porco com ameixa, já que ambos ligam bem, culinariamente falando. ainda perguntei à senhora que estava na linha a servir as refeições, o que é que era o prato em questão. Respondeu-me na algaraviada bávara incompreensível e eu encolhi os ombros e preparaei-me para o meu encontro com o dito cujo Pflaumenauflauf. Carne picada com doce de ameixa e uma generosa colherada de molho de chocolate por cima. Digamos que não foi a minha melhor experiência gastronómica. Foi, todavia, inesquecível.
Hoje, nem sei bem porquê, apetece-me sopa. Passo os olhos pelo que há e uso o método interpretativo do costume: traduzir por aproximação contextual. Brätstrudelsuppe, penso. Brät tanto pode ser qualquer coisa assada como algo salsichoso. Strudel é qualquer coisa enrolada, como no famoso Apfelstrudel, um enrolado de maçã. Suppe é sopa, como está bem de ver. Pois lá me vem uma sopa de panquecas enroladas com recheio de salsicha, fatiadas e servidas a flutuar num caldo de carne. Bem bom, digo só.
E depois que tal uma Milzwurst com salada de batata? Wurst é salsicha mas ele há milhentas variedades que uma pessoa mais vale pôr o coração ao alto e esperar para ver de que se trata esta espécie. É uma salsicha gigante cortada às rodelas e panada, à moda de um Schnitzel, que não é mais do que um panado e quem já comeu Wienerschnitzel saberá que não é mais do que um bife panado.
Há infinitas outras opções de manjares exóticos nesta Baviera de onde me despeço da Alemanha. Por exemplo, sopa de panquecas, Pfannkuchensuppe (sim, em Alemão aglutinam-se as palavras todas de uma única ideia e nascem vocábulos longos como comboios, mas, garanto, é tudo muito prático, linguisticamente falando). Para os menos afoitos, tudo o que diga Teller, que quer dizer, tão simplesmente "prato" há, e não só aqui mas por todo o país as deliciosas opções de Grillteller, que nós familiarmente chamamos "grelhada mista", Käseteller, pratos de queijo, uma das obras-primas da simplicidade e da delícia, ou os Schinkenteller, pratos de carnes frias variadas, outro hino à simplicidade deliciosa, todos devidamente acompanhados de saladas frescas e variadas e pão, o pão rústico pelo qual a Alemanha é tão conhecida e que em nada se fica atrás do bom pão caseiro português. Cresci a comer Käse e Schinkenteller e o hábito ficou-me, de tal forma que, em casa, faço umas variações luso-alemãs que me deixam no sétimo céu da multiculturalidade culinária.
E como a comida se acompanha por bebida e já sabemos que na Alemanha imperam a cerveja e o Riesling, que tal irmos numa de não-alcoólico e pedirmos o bom do sumo de maçã? Força! Contudo, aqui na Baviera, o singelo sumo de maçã é toda uma ciência. Não há cá sumo de maçã. Há, mas é uma coisa cultural. Aqui o sumo de maçã chama-se Apfelschorle. Ora Schorle é quando se corta uma bebida com outra. Bem sei que é criminoso mas os alemães cortam o vinho com água ou com gasosa e isso é um Schorle. O sumo de maçã serve-se como qualquer Schorle. até aqui já aprendemos. O passo seguinte é destrinçar os diferentes tipos de Schorle. Então, temos o Apfelschorle süss, que é a versão doce e o corte é feito com uma gasosa doce e há, também o Apfelschorle sauer, a versão "amarga" em que ao sumo de maçã se junta apenas água com gás. Equipados com este conhecimento dominaremos a arte desta bebida (que faz alguma confusão aos vizinhos austríacos, que a têm mas insistem em chamar "g'spritz"). E só para acabar de confundir, os próprios alemães não se entendem quanto ao género da palavra Schorle. Tendo três géneros, os habituais feminino e masculino, juntaram-lhe um neutro e, dependendo de onde estamos na Alemanha, Schorle tanto pode ser um, ou outro ou outro. Ou seja, não há hipótese de errar gramaticalmente, mas há toda a hipótese de desastre cultural. Boa sorte! E, já agora, aproveitem para descobrir as iguarias deste país que sabe, como nenhum, desmultiplicar a variação da salsicha e da salada de batata, Kartoffelsalat, para que conste.
Guten Appetit! 

3 comentários:

Dalma disse...

Como falou de sopa, na minha opinião quer deste ou do outro lado do Atlântico Norte só são dignas desse nome, as sopas portuguesas e as irlandesas!!

Maria Beirao disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Dalma disse...

B. posso fazer uma observação? Cá vai sem esperar resposta!
Já tenho saudades dos seus “posts fait divers” isto é dos que trazem aqui cenas simples, mesmo banalidades do dia a dia, notícias da sua vida de professora (talvez porque eu o fui), notícias do seu jardim, das amabilidades dos seus vizinhos, da agricultura que faz, se ainda faz... enfim aqueles posts tipo “diários de nada”!
Claro que pode argumentar que só a lê quem quer, mas também é verdade que não gostamos de escrever para ninguém e que se não desejando ter comentadores ás dezenas, mais amais dos que pouco acrescentam, sempre gostamos de ter alguns...
Talvez a minha observação seja consequência (deformação) de eu só escrever sobre “fait divers” no meu “No Areeiro e por aí...”
Dalma