E se volta o Tempo Comum: entregar IRS, chatices do dia-a-dia, a Primavera que não se instala... Mas a Páscoa aqui no campo foi toda flores e a Casa toda desarrumada porque 3 anos de gente e 11 meses de gente têm uma vida muito própria, muito dedadas e migalhas e a Tia não sabia a desorganização que causam criaturas destas idades. Sim, as criaturas pequenas são melhores que flores, mesmo que, no final, deixem a Casa da Tia a parecer um cenário pós-furacão.
Note to self: Why don't teething babies die and choke and get poisoned by all the things they chew?
Segunda nota: como se diz em Português "teething"? E como é que se chama em Português um "toddler"? E como é que eu não tenho vocabulário de bebés em Português?
21 de abril de 2014
18 de abril de 2014
García Márquez
Impossível não se ser tocado por "O Amor nos Tempos de Cólera" (o meu favorito) ou "Cem Anos de Solidão" (o meu segundo favorito). A partir de agora, no Panteão dos deuses das palavras.
RIP
RIP
16 de abril de 2014
Le jour d'après
Como podem ser os dias tão diferentes. Hoje acordei enervada sem razão aparente, quando nem sequer havia razão para nervosismos, bem ao contrário. Talvez que a energia de ontem se tivesse exaurido e me deixasse num invólucro diferente daquele em que ontem o meu corpo habitou. Não sei.
Sei que depois veio o trabalho. O trabalho e mais o trabalho, as contrariedades de uma carreira sem roque neste país sem norte. Perdi as horas do dia em trabalho, danada porque as minhas quarenta horas nunca o foram e não o são mas, para todos os efeitos têm de ser; danada porque as minhas quarenta horas têm de render mais, muito mais, do que as quarenta horas de muitos outros. Se calhar foi por isso que acordei nervosa. Sabia que me ia danar durante o dia.
Sei que depois veio o trabalho. O trabalho e mais o trabalho, as contrariedades de uma carreira sem roque neste país sem norte. Perdi as horas do dia em trabalho, danada porque as minhas quarenta horas nunca o foram e não o são mas, para todos os efeitos têm de ser; danada porque as minhas quarenta horas têm de render mais, muito mais, do que as quarenta horas de muitos outros. Se calhar foi por isso que acordei nervosa. Sabia que me ia danar durante o dia.
15 de abril de 2014
O hoje passado que muda tudo
Para memória futura.
Queridos Manuel e Margarida,
Quando souberem ler e souberem o que se passou hoje será futuro. Mas hoje é presente da Tia, passado de vocês. O dia de hoje foi só da Tia. Mas foi por causa de vocês, ou para vocês, que o dia de hoje sucedeu. Também foi por causa da Tia. Foi por causa de uma conversa com alguém caro à Tia. E foi por causa da Avó Vina, que é a Mãe da Tia, e da Avó Matilde e do Avô Teodoro que são avós da Tia e vossos grandes Avós. De Nós, vocês só conhecem a Tia e a vossa mãe, Mana da Tia. Contudo, a Tia espera que o Tempo deixe que nos conhecemos mutuamente melhor do que hoje, que é um tempo em que é mais a Tia que vos conhece do que vocês conhecem a Tia. Enfim, isto tudo para dizer que, a partir de hoje, haverá um dia em que vocês vão saber deste dia. E neste dia, a Tia legou-vos a sua máxima herança, a qual é: Nós.
Para memória futura (vossa), a Tia vai guardar o bilhete de comboio e vocês nem imaginam a viagem que foi. A Tia conta.
Era uma vez Nós. E Nós vimos de há muito Tempo e de um lugar que se chama nada. Por se chamar nada, e porque nenhum lugar se chama nada, alguém antes da Tia escreveu sobre esse nada e muita gente quis saber porque é que esse nada, que é tudo menos nada, se chama a não existência, esse nada do nome. A Avó Vina e a vossa grande Avó contaram muitas histórias do nada à Tia e a Tia e a vossa mãe passavam as férias infantes ali no nada, que é muito. Só que, de tantos que éramos, ficámos só a Tia e a vossa mãe. A vossa mãe fez-vos para nos continuarmos e a Tia escreveu-nos para se libertar de dores de perda e de saudades e para que vocês, que nunca passarão as férias grandes naquele nada, o possam conhecer e às suas histórias.
Vocês vão ouvir, talvez, que a Tia escreveu um realismo-mágico. Contudo, o que os outros possam chamar de mágico, para Nós, naquele nada, era apenas real. Como é. Por isso, no binómio realismo-mágico, só vos interessa, e a Nós, a parte do realismo. A Tia não sabe, ou sonha, o que se possa seguir. A Tia só sabe deste agora, mas vocês, ao lerem isto, saberão o que se passou entretanto, no futuro, que a Tia desconhece mas que vos será passado. Para já é a potencialidade e a potencialidade é fecunda e larga, cabendo lá muitas coisas: as que a Tia espera e as outras que lhe são imprevisíveis.
O dia de hoje tinha de ser como foi e a Tia pensa que cada dia que viveu permitiu a chegada até aqui, até este hoje, um hoje feito de muitos dias antes, muitas gerações e tantas que recuamos séculos até aos princípios de Nós. A Tia queria dizer muitas coisas. Porém, está tudo a quente e só quando a Tia entrou com a carrinha pelo portão adentro e se deu conta de que a viagem acabara aí, é que se apercebeu que o dia de hoje começava a ser passado e que a viagem já entretanto o era. A quente, a Tia só vos consegue escrever, ela que tanto se escreve nos seus dias. A Tia vai precisar de Tempo para se dar conta do Tempo de hoje, ou seja, a Tia vai precisar que hoje seja passado para que o possa rememorar. Hoje a Tia não consegue, e não quer, outra coisa que não seja viver este dia.
Meus queridos sobrinhos, a Tia está tão feliz por vocês irem saber de Nós...
Queridos Manuel e Margarida,
Quando souberem ler e souberem o que se passou hoje será futuro. Mas hoje é presente da Tia, passado de vocês. O dia de hoje foi só da Tia. Mas foi por causa de vocês, ou para vocês, que o dia de hoje sucedeu. Também foi por causa da Tia. Foi por causa de uma conversa com alguém caro à Tia. E foi por causa da Avó Vina, que é a Mãe da Tia, e da Avó Matilde e do Avô Teodoro que são avós da Tia e vossos grandes Avós. De Nós, vocês só conhecem a Tia e a vossa mãe, Mana da Tia. Contudo, a Tia espera que o Tempo deixe que nos conhecemos mutuamente melhor do que hoje, que é um tempo em que é mais a Tia que vos conhece do que vocês conhecem a Tia. Enfim, isto tudo para dizer que, a partir de hoje, haverá um dia em que vocês vão saber deste dia. E neste dia, a Tia legou-vos a sua máxima herança, a qual é: Nós.
Para memória futura (vossa), a Tia vai guardar o bilhete de comboio e vocês nem imaginam a viagem que foi. A Tia conta.
Era uma vez Nós. E Nós vimos de há muito Tempo e de um lugar que se chama nada. Por se chamar nada, e porque nenhum lugar se chama nada, alguém antes da Tia escreveu sobre esse nada e muita gente quis saber porque é que esse nada, que é tudo menos nada, se chama a não existência, esse nada do nome. A Avó Vina e a vossa grande Avó contaram muitas histórias do nada à Tia e a Tia e a vossa mãe passavam as férias infantes ali no nada, que é muito. Só que, de tantos que éramos, ficámos só a Tia e a vossa mãe. A vossa mãe fez-vos para nos continuarmos e a Tia escreveu-nos para se libertar de dores de perda e de saudades e para que vocês, que nunca passarão as férias grandes naquele nada, o possam conhecer e às suas histórias.
Vocês vão ouvir, talvez, que a Tia escreveu um realismo-mágico. Contudo, o que os outros possam chamar de mágico, para Nós, naquele nada, era apenas real. Como é. Por isso, no binómio realismo-mágico, só vos interessa, e a Nós, a parte do realismo. A Tia não sabe, ou sonha, o que se possa seguir. A Tia só sabe deste agora, mas vocês, ao lerem isto, saberão o que se passou entretanto, no futuro, que a Tia desconhece mas que vos será passado. Para já é a potencialidade e a potencialidade é fecunda e larga, cabendo lá muitas coisas: as que a Tia espera e as outras que lhe são imprevisíveis.
O dia de hoje tinha de ser como foi e a Tia pensa que cada dia que viveu permitiu a chegada até aqui, até este hoje, um hoje feito de muitos dias antes, muitas gerações e tantas que recuamos séculos até aos princípios de Nós. A Tia queria dizer muitas coisas. Porém, está tudo a quente e só quando a Tia entrou com a carrinha pelo portão adentro e se deu conta de que a viagem acabara aí, é que se apercebeu que o dia de hoje começava a ser passado e que a viagem já entretanto o era. A quente, a Tia só vos consegue escrever, ela que tanto se escreve nos seus dias. A Tia vai precisar de Tempo para se dar conta do Tempo de hoje, ou seja, a Tia vai precisar que hoje seja passado para que o possa rememorar. Hoje a Tia não consegue, e não quer, outra coisa que não seja viver este dia.
Meus queridos sobrinhos, a Tia está tão feliz por vocês irem saber de Nós...
7 de abril de 2014
O dia em que a minha sobrinha vestiu o meu vestido de baptismo
E tudo isto é admirável a meus olhos.
O meu vestido de baptizado. O meu vestido escolhido pela Mãe. O meu vestido vestido pela Margarida.
Olho para a minha irmã a segurar a filha ao colo com aquele vestido e revejo a última Mãe que segurou um bebé ao colo com aquele vestido. Vejo a minha irmã e recordo a Mãe. A minha irmã que é mãe. A minha irmã que é um decalque da Mãe à sua maneira. Olho para isto que nos sucede e nenhumas palavras terrenas conseguem exprimir o que sinto. Se ao menos fosse possível dizer como transborda o meu peito, como me encho de um orgulho que não cabe em mim. Ver a minha irmã. Ver a Margarida. E lembrar-me sempre da Mãe e vê-La ontem ali na sala. O vestido que transporta passados e se faz presente e futuro.
Tudo isto é admirável a meus olhos.
O meu vestido de baptizado. O meu vestido escolhido pela Mãe. O meu vestido vestido pela Margarida.
Olho para a minha irmã a segurar a filha ao colo com aquele vestido e revejo a última Mãe que segurou um bebé ao colo com aquele vestido. Vejo a minha irmã e recordo a Mãe. A minha irmã que é mãe. A minha irmã que é um decalque da Mãe à sua maneira. Olho para isto que nos sucede e nenhumas palavras terrenas conseguem exprimir o que sinto. Se ao menos fosse possível dizer como transborda o meu peito, como me encho de um orgulho que não cabe em mim. Ver a minha irmã. Ver a Margarida. E lembrar-me sempre da Mãe e vê-La ontem ali na sala. O vestido que transporta passados e se faz presente e futuro.
Tudo isto é admirável a meus olhos.
4 de abril de 2014
2 de abril de 2014
Morreu o Jacques Le Goff
E, de súbito, apetece-me reler a Civilização do Ocidente Medieval. Já não me lembro em que cadeira é que descobri Le Goff, deve ter sido ainda no 1º ano da licenciatura nos cadeirões gerais. Sei é que li e rascunhei o livro todo e, não contente com o rascunhado, enchi-o de post-its que me seriam muito úteis quando foi do Mestrado e que ainda me servem de guião para consultas rápidas. Nunca mais li o livro mais do que em modo consultivo mas ontem fiquei com vontade de regressar...
RIP
RIP
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