20 de setembro de 2017

Dia 2: Tegernsee

Quando decidimos (ou melhor e mais bem dito), quando eu decidi que este ano a Alemanha era "a" viagem a fazer, poderia ter começado por qualquer lado. Nasci no Norte, vivi mais a Norte, estudei no Sul e a minha família, que é originária do estado de Brandenburg, mora em Berlim. Achei melhor começar pelo Sul, pela Baviera que é um estado de absoluta beleza paisagística e patrimonial e onde o Verão é mais Verão do que no Norte. Além disso, enquanto os meus padrinhos americanos aqui estivessem não ia sujeitá-los às emoções e lembranças que me esperam no Norte. Ademais, eu estudei na universidade em Eichstätt aqui bem na Baviera e, por isso, é um estado que conheço de lés a lés e onde posso fazer de anfitriã perfeita e conhecedora.
Depois dos reencontros de ontem e de assentarmos arraiais em Starnberg, proponho irmos almoçar a Tegernsee, um outro lago a poucos quilómetros de Starnberg. Estamos na região dos cinco lagos. O Starnbergersee (See é lago em alemão) é o maior e está rodeado de outros lagos igualmente encantadores e azuis tais como o Tegernsee ou o Ammersee. À falta de mar, os alemães desenvolveram o culto dos lagos que funcionam como autênticos locais de veraneio e praia. Aqui, uma estância balnear tem um lago em pano de fundo e a água, surpreendam-se, não é tão fria como em certas praias da nossa bela e lusa costa oeste.
Almoçamos com vista para as cores do lago e dou a mão à minha madrinha, feliz de os ter ali, feliz por estar ali, feliz por a vida me dar este Agora.
Happiness is this: this moment, this place, these three people around me. So simple and so whole...

18 de setembro de 2017

Dia 1: Celebrar

Assim que chego ao lobby do hotel vejo-os. Estão devidamente prontos para começar a viagem. Chegaram há uns dias. Esperam por mim do lado de fora da porta sem saberem que nem saí do aeroporto e que entrei no hotel por um elevador que dá para um dos terminais. Terceira mudança de língua num dia que me começou às seis da manhã e ainda não chegou ao almoço. Alegro-me nesta e desta família internacional.
Quando casei o ano passado, casei porque estas pessoas queriam que eu casasse para ser feliz. Tinham razão. Foram, de propósito, ter comigo a Las Vegas, aguentaram os 45ºC daquele deserto e foram os melhores padrinhos que alguém pode ter. Também lhes quero mostrar a "minha" Alemanha e eles, sempre prontos a deixar Chicago, disseram logo que sim. Encontramo-nos e os três esperamos pelo marido com quem me casaram e que chegou à Alemanha antes de mim porque queria ver coisas que eu não quero e que me ferem, como ferem todos os alemães. Quando chega, somos um bando de quatro criaturas felizes no reencontro. Bagagens para o carro e seguimos até ao nosso quartel-geral para os próximos cinco dias: Starnberg, uma pequena e pacata cidadezinha nas margens de um lago maravilhoso a sul de Munique.
Ao serão visto o vestido com que me casei na tal capela kitsch em Las Vegas e jantamos os quatro brindando a dois aniversários de casamento coincidentes, o nosso primeiro e o 41º deles.
Cheers! Let love rule!

15 de setembro de 2017

Dia 1: Pousar

Ando há anos a adiar esta viagem. Empurro-a sempre e mais para a distância do futuro não querendo que o futuro chegue porque o sei derradeiro e último. Adio e adio porque me vai doer porque vou reviver, lembrar. Há muitos mortos nesta viagem e todos me doem. Mas também há vivos que me doem porque os amo e porque, no normal rumo da Vida, os irei perder.
Mas devo-me e devo-lhes esta viagem. Além disso, na vida nova que comecei vai para um ano quando disse "I do" numa capela kitsch em Las Vegas, há alguém que me merece que lhe mostre o outro pedaço de mim. Sim, quero. Quero mostrar-lhe o país da língua em que nasci, as pessoas que aí estavam quando nasci e que ajudaram a fazer de mim o que sou hoje, como sou hoje: um híbrido entre o Sul e o Norte. Quero mostrar-lhe o contrário dos estereótipos do povo frio e mal-amado. Quero mostrar-lhe os sítios a que também chamo casa e que me são origem. Quero que conheça "os meus" e que "os meus" o conheçam.
Engraçado, na minha outra vida nunca quis que o outro do meu não-casamento conhecesse a minha metade não-portuguesa. Nunca o levei lá, mesmo quando eram mais os vivos do que os mortos. Mas ainda há tempo. Ainda há vivos e, sobretudo, há o meu querer. O plano era simples: este ano cumprir-se-ia a terceira parte da viagem costa-a-costa aos Estados Unidos. Porém, veio uma nova face política e vieram os 90 anos da Tante Ruth. 90 anos! A Alemanha chama-me e eu vou.
Aterro sózinha em Munique. O meu marido juntar-se-me-á já no país. É rápida a imersão porque eu não venho como turista.
- Wie chic! - Ouço de mim e do meu chapéu de cerimónia usado sem cerimónia assim que chego ao balcão de informações. Pergunto qual o percurso mais rápido até ao Hilton Airport pois aí é o ponto de encontro do encontro que vai começar a viagem. Sorrio. Agradeço o elogio. Recebo a informação e apresso o passo enquanto puxo o trolley que não vem feito para viagens leves.
Cheguei e não me sinto estranha. Se calhar não é uma chegada, é um regresso...

13 de setembro de 2017

Dia 0: Fazer a mala

Nunca consegui viajar leve. O conceito tão alardeado como útil e merecedor do melhor viajante é-me desconhecido. Travel light... Pois sim, claro que não. Preciso empacotar-me para dezoito dias de clima quatro estações. Vai estar frio e chuva e calor e mais ou menos. Levo um chapéu para me proteger do sol e um para me resguardar da chuva. Levo um impermeável de penas e blusas de Verão, sapatos fechados e sandálias, algo para uma saída à noite mais chique e vestidos de passeio. E, claro, um bloco de notas à antiga junto com um tablet híbrido que me ligue ao mundo moderno.
Travel light? Pois sim, claro que não.

21 de julho de 2017

Preparando nova viagem

Tão perto e tão longe os dias de férias. A semana final antes da paragem para o Verão é sempre a mais custosa de passar e a mais laboriosa. Pontas e mais pontas soltas que têm de ser atadas, o tempo com pressa de fugir sem chegar para nada e o tempo que não passa em paradoxo.
Este ano as férias serão um regresso a um local meu não-meu. Adiei esta ida onde irei por vários anos. Há uma despedida que me aguarda e da qual tenho vindo a fugir. Não posso, nem devo, nem quero adiar mais por isso vou. Por outro lado, devo ao homem que me casou em Las Vegas o encontro com o sítio para onde o levo, o conhecer o alguém que me espera no destino. Quero, como quero, que ele conheça este sítio meu e não-meu. Quero mostrar-lho. Quero que ele conheça as pessoas do meu passado e o meu passado, as minhas origens, a minha língua primeira, a geografia da minha familiaridade. Quero levá-lo aos meus locais preferidos e escondidos e mostrar-lhos com um sorriso.
Virão também os padrinhos americanos que nos casaram em Las Vegas. Agora que se tornaram família também lhes quero mostrar esse pedaço de mundo do qual tão longe vivo e do qual tanto e tanto me vou, e cada vez mais, afastando. Vai ser "giro" acho. Emocional e emocionante. Aguardo e antecipo a viagem. Conto em decrescente. Está quase e só falta o quase...

12 de julho de 2017

No Luso

Não sei porquê nunca me deu para ir ao Luso. Talvez seja a minha sempre-presente renitência ao Norte e o Luso, para mim, é a norte. Talvez seja porque tenha ouvido falar da humidade do Luso e eu, que amo os desertos, não me fascino pela humidade. Quis porém o caprichoso Destino que eu fosse ao Luso. E eu fui, pois. Lá se nega o Destino?
A primeira coisa que descobri é que sim e sim, confirma-se que o Luso é húmido, e frio e pardacento, mesmo em pleno Julho. Eu passei frio em Julho no Luso. Frio, certo? Pois, isto não ajuda nada a que me aproxime do Norte (ainda que em Agosto eu vá de viagem para o grande Norte onde nasci e que não quis para vida, mas isso é, e será, outra história...).
A segunda coisa que descobri é que não, não é Grande Hotel "do" Luso mas, antes, Grande Hotel "de" Luso. Penitencio-me já pela anterior ignorância ainda que não consiga discernir a diferença de sentido atribuída pela preposição em estado neutro. Enfim, a ignorância tem destas coisas...
E assim se passou um dia de pico de Verão numa terra de humidade, frio e neblina. Não sei porquê nunca me deu para ir ao Luso. Perante esta vivência não sei se me dará para voltar ao Luso. O Destino caprichoso disso se encarregará pelo sim ou pelo não.

3 de julho de 2017

E Évora aqui tão perto

O Alentejo veio em descoberta tardia. É uma das coisas que devo ao meu infame divórcio. Foi durante aquela travessia que, felizmente, me trouxe à liberdade que descobri este pedaço grande de chão e céu. Tenho sempre vontade de regressar. Gosto de tudo. Não me importo de repetir. É um Sul que me chama e de cujo chamamento eu gosto. E eu, já se sabe, amo o Sul e todos os "Suis". Às vezes perguntam-me onde, no planeta que conheço, eu gostava de ter uma casa sem ser esta que tenho, no sítio onde tenho e que não troco por nada. Costumava responder na "Flórida" ou na Ilha de Rodes na Grécia até ter conhecido o Alentejo. O Alentejo... A planície sem fim e a paisagem mediterrânica, as cigarras em alta-voz, as cegonhas, o calor mole e os pores-de-sol em céu infinito, Espanha para lá do horizonte, gaspacho ao jantar e as rectas emolduradas por sobreiros descascados e tronco cobre-vivo.
Fui de passeio a Évora a pretextos de almoço. Não que precise de pretexto para passear, mas um pretexto dá um objectivo e o objectivo cria expectativa que, por sua vez, confere ganas e alento e assim lá fui a Évora. Conheço bem e, de cada vez, é como se não conhecesse que é para não cair na rotina dos sítios conhecidos que de tanto vermos deixamos de ver. E lá fui pelos becos e vielas da cidade-património sorrindo a imaginar a alma de povo que baptiza as ruas com imaginação tão popular e folclórica. Abençoado povo que se engrandece pela, e na, despretensão.