Nunca imaginei escrever sobre piercings e tatuagens, tal como nunca pensei que se pudesse legislar, com laivos impeditivos e autoritários, o que se pode, ou não, fazer com ou ao nosso corpo. Vamos por partes.O corpo humano foi talvez das primeiras telas usadas pelo Homem e, por isso, uma das mais antigas maneiras de expressão gráfica, leia-se artística. Colorir o corpo, preenchê-lo de cicatrizes, perfurá-lo dos mais diversos modos é algo tão humano como usar vestuário ou acessórios. Só o puritanismo ocidental dos séculos mais recentes desdenhou o uso do corpo como adequado à invasão pela Arte.
Nos últimos anos ressurgiu, parece, um renovado prazer em ornamentar o corpo com técnicas e formas antigas. São populares as tatuagens celtas, maoris e totémicas, isto é, tatuagens de inspiração étnica presentes em diversas culturas e, ainda hoje, cultuadas. É também disseminado o uso de piercings (do verbo inglês "to pierce" ou furar) que de novo não tem nada porque também é remanescente de culturas tribais ameríndias e da Australásia. Ou seja, este revivalismo de tatuagens e piercings não é uma invenção de gente marginal dada a hábitos condenáveis. É meramente uma forma de expressão pessoal que tem acompanhado o passo da evolução humana.
Claro que cada um de nós tem absoluto direito a gostar ou não de tatuagens e piercings. Pessoalmente não acho piada a piercings na face e na língua, mas apenas porque os acho inestéticos. Também não me seduzem as tatuagens de corpo inteiro porque, afinal, a pele também é bonita e sensual ao natural e, sobretudo, não me venham com tatuagens amadoras de caveiras azuis e águias do Benfica. Porém, se há quem goste vou fazer o quê? O mau-gosto não é contagioso felizmente.
Defendo, todavia, que se deva legislar sobre os locais apropriados para a realização deste tipo de ornamentação corporal. E mais, defendo que se aperte bem a vigilância sobre as condições higiénico-sanitárias desses locais e que até haja formação para os profissionais do ramo. Até aí tudo bem.
Agora, proibir a realização de piercings em sítios específicos do nosso corpo? Mas quem manda aqui no meu próprio corpo? O Estado? Acaso serei propriedade pública? E porque não proibir quem fuma? Considero que legislar sobre o meu corpo é mais invasivo do que legislarem sobre aquilo que eu faço dentro das paredes da minha casa. Legislar sobre o meu corpo é a forma final, máxima e mais trucidante da minha auto-determinação como ser humano detentor de livre-arbítrio que posso conceber. Se eu tenho o direito humano de recusar um tratamento médico que poderá salvar a minha vida porque tenho de estar limitada ao uso que quiser fazer do meu corpo?
Confio, ainda, que se vá a tempo de inverter o que esta legislação encerra de coersivo ao dispor individual do bem mais precioso que temos: o Eu!
P.S. - A Blonde, como não é hipócrita, escreve, como se depreenderá, com conhecimento de causa.




