12 de janeiro de 2017

Dia 10: Monument Valley

A expectativa era grande. Trazia na mente todas as imagens icónicas das páginas da National Geographic, dos documentários, dos filmes do faroeste. Imaginava as caravanas dos conquistadores desta América que se aventuraram pradarias adentro para domar o Oeste. E eis que na curva da estrada, a imagem se abre em grande angular. É a imagem ícone tal qual a do meu imaginário. Monument Valley levanta-se da planície e enche-me os olhos.
Éons de anos de erosão e o que resta são esculturas megalómanas que se assemelham a catedrais gigantescas. É imenso. É mítico. Sinto-me uma insignificância face ao Tempo longo de eras que me cerca. Recolho-me em pensamentos e gratidões. Sempre a gratidão, essa forma de me dar conta do surpreendente sem cair no pasmo oco. Monument Valley... Cheguei. Estou aqui, maravilha-me.
No meio do Território Navajo, Monument Valley emana antiguidade olhando para nós, na nossa ínfima pequenez com a plácida sobranceria de quem ou algo que já viveu tudo e não se perturba com nada. Encho uma garrafa vazia desta modernidade que aqui trago invasora com a areia encarnada e fina do chão que já foi altura e altitude. Não deveria ter feito este acto vândalo mas a experiência telúrica é um chamamento a que não consigo e não me apetece resistir. Trarei Monument Valley comigo agradecendo-lhe pelos momentos de extasiada maravilha que me proporciona na alma e no olhar...

10 de janeiro de 2017

Dia 10: De volta à estrada

Numa roadtrip é difícil sair da estrada mas, depois de ontem em que a viagem se fez fora da estrada e rumo ao passado, hoje é à estrada que se regressa. A estrada da curiosidade, da visão grandiosa da América no que tem de estranho, simples ou majestoso.
É a estrada das vistas avassaladoras, a estrada dos desertos e da desolação. É também a estrada das coisas desconexas que nos reclamam a atenção do olhar e é a estrada do cowboy solitário.
A estrada é viagem e destino.

7 de janeiro de 2017

Dia 9: Ir dormir a Bloomfield

Deixo as ruínas de Chaco de olho posto nos céus em busca de nuvens suspeitas. 21 milhas de estrada selvagem separam-me do asfalto que me diz que cheguei ao meu mundo. São 21 milhas que levam quase duas horas a desfazer. Se chover em tempestade não há fuga, nem abrigo, nem auxílio. A civilização do presente está longe.
Há qualquer coisa de instinto primevo quando nos encontramos assim sem rede. É uma adrenalina de excitação e receio que nos vicia e nos faz regressar a mais perto de nós. Vou olhando para as nuvens e para o solo desértico incapaz de me decidir pelo céu ou pela terra. Aqui, não há preocupações mundanas de horários, agendas, compromissos e responsabilidades. Aqui, apenas me preocupo com a eventualidade da tromba de água repentina e nada mais. Quão libertadora não é esta preocupação?
E, por fim, o asfalto. Mais uma hora de condução até Bloomfield, cidadezinha de interior cuja existência eu desconhecia até ontem e que me vai servir de pernoita aqui na vasta imensidão do interior americano. Durmo sob as ruínas de Chaco e descanso em paz.

4 de janeiro de 2017

Dia 9: Chaco

Depois de horas de estrada acidentada surge no nada da paisagem árida a monumentalidade de Chaco. Perfeitamente camufladas, as ruínas são unas com a paisagem mal se distinguindo das rochas que as envolvem. Sinto-me instantaneamente transportada a outras eras e espaços e sinto a sacralidade que paira como aura e alma deste sítio. Inspiro o ar antigo. Há locais assim, mortos mas vivos. Locais passados que perduram mesmo quando a sua existência é uma sombra ténue do que foram. Assim é Chaco.
Há qualquer coisa de egípcio e de andino nestas ruínas misteriosas. Pouco se sabe desta civilização perdida. Percorro as salas da Grande Casa imaginando o que poderiam ter sido. Passo as mãos pelas paredes tocando as pedras perfeitamente ajustadas. Que tecnologia terá erigido estas construções? Que propósitos terão tido? Chaco é, afinal, um conjunto de povoados dispersos por este vale remoto, construídos seguindo o maciço rochoso com o qual se fundem. Quem habitou aqui?
As questões sem resposta fazem-me gostar ainda mais deste local de antiguidade. Perco-me em pensamentos convocados pelas imagens que me chegam aos olhos. A distância e os acessos deploráveis fazem de Chaco uma maravilha ainda pouco enxameada por turistas.
- O, you're my first Portugals! - Oiço na voz entre o perplexo e o quase histérico da funcionária do parque. Trabalha aqui há 25 anos e nunca recebeu visitantes de Portugal. Sorrio na complacência de que, pelo menos, sabe onde é Portugal ainda que não saiba o gentílico do país.
No walkie-talkie da ranger do parque escuto o alerta de que a entrada sul do parque acaba de ficar intransitável. As chuvas repentinas e grossas causaram uma daquelas inundações súbitas e o acesso ficou submerso. Olho para o céu a apurar se vem aí tempestade. Talvez... Despeço-me de Chaco já com saudades e peço a não sei quem ou quê, talvez à alma antiga que aqui habita, que os acessos difíceis continuem a deixar em paz este local. À minha frente duas horas da mesma estrada sem ser estrada que me levarão de regresso ao meu tempo. Peço também que não chova antes de eu chegar ao asfalto distante...

27 de dezembro de 2016

George Michael, I'm Inconsolable...



I spent more years having you alive in my life than I had a living Mother. Stupid how things are, the things we take for granted and that suddenly aren't anymore. So stupid...
I'm grieving as though you were a close relative, a loved one in my inner circle of few loved ones. But you were a relative who kept me company so often and for so long. I still can't come to terms with referring to you in the past. I read the news and I'm still perplexed that the man who died is you and not somebody else. Disbelief. Denial. Rage. All those grieving stages I've covered but I don't know when the last stage will happen. Accepting you died and that you are not just secluded away from the world... that's a tough one.
Never have I cried over the passing of a public figure. Not until you died. I cried the entire morning of yesterday. I cried until a loved one, from a time much after you happened to me, took me out to do things that might distract me from the pain of you. Little, momentary solace. The morning today still found me inconsolable. I read all the wonderful obituaries, the eloquent words that now say you were the greatest amongst the great of this Earth but they don't quite mean what you mean to me. Now they are making an activist out of you. Imagine, you an activist! How so very stupid too. They are condensing your genius into a label that you did not seek.
For me, you are not the George Michael of LGBT activism, the George Michael of tabloid scandal. You are the George Michael that pioneered the Boys Bands that sing "Inconsolable". You are the George Michael of the songs that reflected my growing up and were simultaneous with the process of my coming of age. You are the George Michael of incredible vocal range and talent as songwriter of the modern classics. You are pop and every bit the embodiment of what pop is. My heart will always and forever love you but for now I'm inconsolable...
RIP (even if I can't say that just now, not yet...)

26 de dezembro de 2016

George Michael, 1963-2016



Nunca pensei escrever este post. Acho que nem tenho palavras para o choque. My childhood died today. My teenage idol died e eu perco uma parte de mim... I cannot believe this!
Rest in peace thou greatest of artists, my undying memory. Thank you for everything.
Thank you...