Nova Iorque é os seus edifícios, entidades providas de nome, identidade, individualidade. O Flatiron Building, literalmente, o ferro de engomar, é um deles. O aspecto triangular dá-lhe a imagem distintiva que o associa ao electrodoméstico comezinho e quotidiano. No entanto, nem há maior antítese. O Flatiron não tem nada de comezinho.
Localizado numa área de "prime real estate", onde o metro quadrado atinge somas exorbitantes demais para o entendimento da nossa comum mortalidade, o Flatiron está na charneira entre a opulência da Quinta Avenida e a boémia Broadway. Evocativo dos primórdios confiantes do século XX, foi acabado de construir em 1902, é uma ode ao poder do aço e do betão com aspirações ao belo e não meramente ao funcional. Tem o seu quê de simpático à vista e de menos arrogante no seu gigantismo face a outros vizinhos. Lá dentro aloja um dos maiores portentos editoriais do mundo, a Macmillan, curiosamente em mãos de um grupo alemão. Livros, aço, betão, a Quinta Avenida e Manhattan em dia de sol, o pensamento dessa comunhão não deixa de ser alegre.
10 de outubro de 2018
6 de outubro de 2018
Empire State
Quem vem a Nova Iorque pela primeira vez, palpita-me, sucumbe à tentação de subir ao topo do Empire State Building, o arranha-céus icónico com o mesmo nome do estado em que se localiza a cidade. O estado de Nova Iorque é o estado do império, sem que ninguém saiba o porquê da denominação. Já fui turista com essa tentação da subida. Sofredora de vertigens como sou, agarrei o medo e lá me aventurei rumo à altura. Naquele tempo, havia as vistas para as Twin Towers e tudo se menorizava no contraste com aquela verticalidade a pique. Havia vento, muito vento, e o vento puxa à vertigem. Vi o azul do rio e uma minúscula, se bem que continuamente imponente, Estátua da Liberdade. Desci, contente por vencer pavores que, para mim, nada têm de irracional, e feliz por ter feito um visto numa quadrícula de coisas imprescindíveis em Nova Iorque.
Os anos passaram. Nada me chama a empreender a subida em elevadores ultra-rápidos com a promessa da vista fascinante sobre a cidade que nunca dorme, que tudo pode e onde tudo se pode. Vejo o colosso agarrada ao solo, à distância ou a espreitar entre o emaranhado de prédios. Lembra-me sempre a época antitética em que foi construído, um tempo de recessão e, apesar de tudo, optimismo. O crash bolsista de 1929 aconteceu no ano antes do início da sua construção em Março de 1930. Treze meses depois era inaugurado. Posso não subir ao alto do Empire State mas, para mim, ele é a corporização do espírito americano...
Os anos passaram. Nada me chama a empreender a subida em elevadores ultra-rápidos com a promessa da vista fascinante sobre a cidade que nunca dorme, que tudo pode e onde tudo se pode. Vejo o colosso agarrada ao solo, à distância ou a espreitar entre o emaranhado de prédios. Lembra-me sempre a época antitética em que foi construído, um tempo de recessão e, apesar de tudo, optimismo. O crash bolsista de 1929 aconteceu no ano antes do início da sua construção em Março de 1930. Treze meses depois era inaugurado. Posso não subir ao alto do Empire State mas, para mim, ele é a corporização do espírito americano...
3 de outubro de 2018
As Twin Towers já lá não estão
A vida tem coincidências estranhas. Por uma dessas coincidências fui das últimas pessoas a ver as Torres Gémeas de pé. Estávamos em 2001, George W. Bush era presidente dos EUA e eu andava por Nova Iorque nesse Verão quente como o são todos os Verões nova-iorquinos. A notícia era incrível, no sentido de não poder ser credível. Vi um avião embater numa das Torres e pensei que se tratasse de uma coisa qualquer para um filme-catástrofe de Hollywood. Depois, num segundo pensamento, veio-me à mente que aquilo poderia ter sido um dos milhentos helicópteros privados que sobrevoam a cidade a cada instante. Teria sido um acidente qualquer com uma avioneta particular, qualquer coisa assim. Porém, a realidade transcendia qualquer proeza hollywoodesca. Foi dos dias mais terríveis de que tenho memória tirando as memórias tenebrosas que me ligam ao desaparecimento da minha Mãe.
No dia seguinte às Torres caírem, todo o meu corpo doía, amassado que estava pela incredulidade daquelas horas de horror.
Todos estes anos depois, o Ground Zero já não é uma ferida no skyline desta cidade. Não consigo lá ir. Vejo à distância o que se reconstruiu, o que se reergueu mas não consigo ir pisar aquele chão. Há dias que nunca nos sairão da memória...
No dia seguinte às Torres caírem, todo o meu corpo doía, amassado que estava pela incredulidade daquelas horas de horror.
Todos estes anos depois, o Ground Zero já não é uma ferida no skyline desta cidade. Não consigo lá ir. Vejo à distância o que se reconstruiu, o que se reergueu mas não consigo ir pisar aquele chão. Há dias que nunca nos sairão da memória...
29 de setembro de 2018
Estátua da Liberdade
Nunca pus os pés em Liberty Island. Há sempre qualquer coisa que me impede de descer do barco e ir colocar-me aos pés da Estátua da Liberdade. Aquilo é algo tão icónico que é como se a estátua fosse uma deusa viva e eu queira, por isso, manter a distância não lhe violando o espaço olímpico onde reside. Prefiro vê-la ao longe e abrangê-la na sua magnífica plenitude. É como se juntar-me às horas turistas que a vão ver ao perto fosse uma dessacralização, uma heresia. Assim sendo, contento-me, feliz, por vê-la nesta distância solene e respeitosa.
26 de setembro de 2018
Acordar em Nova Iorque
Ah, que saudades eu tinha de acordar em Nova Iorque! Até da humidade quente e densa eu tinha saudades. Tenho sempre a sensação de que aqui se aloja o coração do mundo e de que todos os clichés da cidade que nunca dorme, da cidade onde tudo é possível se aplicam.
O taxista que nos traz do aeroporto ao hotel é latino-americano. Vive cá há décadas e ama a América, ama Nova Iorque, dá-nos conta do regime de impostos, das oportunidades que tem, das que têm os filhos já criados. Talvez regresse à sua Colômbia-natal e o Trump só vai estar no poder uns tempos, depois há-de sair. Continua tudo igual menos o trânsito que está cada vez pior. Não se queixa da vida. E é isto o espírito americano, o não se queixar da vida.
O hotel fica colado a Times Square e, da janela, do quarto vêem-se os néons, os LEDs que iluminam aquela praça mítica de todos os sonhos e potencialidades. Penso que também hei-de vencer aqui quando se materializarem projectos que tenho e trago. Que cidade rude e avassaladora e, ao mesmo tempo, que cidade positiva. Deixo as malas no quarto às três pancadas e saio para ver se inspiro a cidade. Anything is possible in New York...
O taxista que nos traz do aeroporto ao hotel é latino-americano. Vive cá há décadas e ama a América, ama Nova Iorque, dá-nos conta do regime de impostos, das oportunidades que tem, das que têm os filhos já criados. Talvez regresse à sua Colômbia-natal e o Trump só vai estar no poder uns tempos, depois há-de sair. Continua tudo igual menos o trânsito que está cada vez pior. Não se queixa da vida. E é isto o espírito americano, o não se queixar da vida.
O hotel fica colado a Times Square e, da janela, do quarto vêem-se os néons, os LEDs que iluminam aquela praça mítica de todos os sonhos e potencialidades. Penso que também hei-de vencer aqui quando se materializarem projectos que tenho e trago. Que cidade rude e avassaladora e, ao mesmo tempo, que cidade positiva. Deixo as malas no quarto às três pancadas e saio para ver se inspiro a cidade. Anything is possible in New York...
23 de setembro de 2018
Chegar aos States na era Trump
Ainda não tinha ido aos Estados Unidos nesta era esquizofrénica da nova presidência. Ia apreensiva, sabendo da ideologia dominante nesta Casa Branca. Imaginei os americanos no seu pior e pensei que ia ser sujeita ao cabo dos trabalhos de passar pela fronteira. Enganei-me. Redondamente.
Na fila de espera até à Border Control à saída do avião, ecrãs e ecrãs entretêm os turistas e todos os que entram no país com a CNN. Espanto-me por ser a CNN que está ligada aqui. Tudo bem que este ano o meu porto de entrada no país é essa cidade liberal que é Nova Iorque, mas mesmo assim. A fronteira passa-se sem episódios estranhos ou menos normais do que o costume. O país, os americanos estão como sempre os encontro, afáveis e metidos na sua vida. Ando por estados conservadores como o Indiana e o Ohio e não estranho nada, é como se o residente da Casa Branca não fosse quem é.
Em Nova Iorque, o The New York Times continua na sua cruzada pela verdade dos factos, em Times Square os ecrãs gigantes debitam vídeos do Stephen Colbert e do seu talk-show tornado em arma de resistência. Na era Trump, os Estados Unidos estão iguais a si próprios. Gosto.
Na fila de espera até à Border Control à saída do avião, ecrãs e ecrãs entretêm os turistas e todos os que entram no país com a CNN. Espanto-me por ser a CNN que está ligada aqui. Tudo bem que este ano o meu porto de entrada no país é essa cidade liberal que é Nova Iorque, mas mesmo assim. A fronteira passa-se sem episódios estranhos ou menos normais do que o costume. O país, os americanos estão como sempre os encontro, afáveis e metidos na sua vida. Ando por estados conservadores como o Indiana e o Ohio e não estranho nada, é como se o residente da Casa Branca não fosse quem é.
Em Nova Iorque, o The New York Times continua na sua cruzada pela verdade dos factos, em Times Square os ecrãs gigantes debitam vídeos do Stephen Colbert e do seu talk-show tornado em arma de resistência. Na era Trump, os Estados Unidos estão iguais a si próprios. Gosto.
11 de setembro de 2018
A descobrir o meu sobrinho
Estamos no carro. Pede-me U2.
- Um álbum qualquer, Tia. Conheço-os todos.
Parte do meu cérebro trava enquanto a outra tenta perceber. Tem sete anos.
- U2? - pergunto.
- Sim, Tia.
Tocam os U2. Sabe as letras todas. Canta-as e o meu cérebro sem perceber aquela possibilidade. Pergunto-lhe se o pai ouve U2 porque nem eu, nem a mãe dele ouvimos.
- Descobri sózinho.
- E gostavas de ir a um concerto dos U2?
- Adorava, Tia. Mas os bilhetes são só para adultos. Adorava, Tia.
Já se passaram uns dias e eu continuo nesta estupefacção. O meu sobrinho de sete anos descobriu U2, gosta de U2 e canta U2 sem que isso lhe seja um gosto ensinado. Que tempo é este que corre tão veloz?
Descubro, por coincidência, que vou a um concerto de U2 para a semana. Não sou fã. Não aprecio particularmente se bem que a minha canção favorita de sempre seja "One" na versão Mary J. Blige e U2. Eu vou ao concerto sem saber que os U2 vinham cá. Vou sem saber que ia e o meu sobrinho que ama e adora não vai porque só tem sete anos. Ele há cada coincidência...
- Um álbum qualquer, Tia. Conheço-os todos.
Parte do meu cérebro trava enquanto a outra tenta perceber. Tem sete anos.
- U2? - pergunto.
- Sim, Tia.
Tocam os U2. Sabe as letras todas. Canta-as e o meu cérebro sem perceber aquela possibilidade. Pergunto-lhe se o pai ouve U2 porque nem eu, nem a mãe dele ouvimos.
- Descobri sózinho.
- E gostavas de ir a um concerto dos U2?
- Adorava, Tia. Mas os bilhetes são só para adultos. Adorava, Tia.
Já se passaram uns dias e eu continuo nesta estupefacção. O meu sobrinho de sete anos descobriu U2, gosta de U2 e canta U2 sem que isso lhe seja um gosto ensinado. Que tempo é este que corre tão veloz?
Descubro, por coincidência, que vou a um concerto de U2 para a semana. Não sou fã. Não aprecio particularmente se bem que a minha canção favorita de sempre seja "One" na versão Mary J. Blige e U2. Eu vou ao concerto sem saber que os U2 vinham cá. Vou sem saber que ia e o meu sobrinho que ama e adora não vai porque só tem sete anos. Ele há cada coincidência...
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