31 de dezembro de 2008

Dulce et Decorum est...


... tecer agradecimentos e fazer balanços em final de ano. Cá vai.

Há um ano atrás eu escrevia aqui o meu primeiro post em Português, um exercício um pouco naïf tirado a ferros e pensado durante vários dias tal era o pânico da exposição numa língua que não é aquela em que penso, trabalho ou escrevo profissionalmente e que somente uso socialmente (e mesmo assim nem sempre). Foi um post constrangedor, o rever-me em contraste directo com a língua do meu país, a qual, paradoxalmente, não é a minha língua e, simultaneamente, libertador porque foi o início da percepção de que o Português não me magoa. Chego ao fim do ano e, por muita vontade que tenha em escrever noutro idioma, forço-me ao Português e surpreendo-me de cada vez porque, afinal, o pensamento flui, o interior escorre para fora. Acho que falo Português com os dedos e Inglês e Alemão com a mente. (Não sei se isto é compreensível mas é assim que me movimento na Torre de Babel em que o meu cérebro habita).

E é isso, um ano passou. Um ano memorável, no que o memorável tem de horrível e sublime. Retiro apenas o sublime porque é isso que quero preservar quando morrer. "Aqui descansa a Blonde que viveu o sublime", apenas isto como epitáfio. O que vi e fiz, o que senti, os sítios onde fui, o que dei e o que recebi, isso é sublime e este ano foi pródigo. Vergo-me na humildade da gratidão pela generosidade com que Deus, o Universo me tem tratado.

E onde anda o blog no meio disto tudo? O blog é a testemunha de parte deste sublime e fiel testamentário de libertações, (in)confidências, exorcismos, lugar de escape e de auto-descoberta (lá está, descubro que ao falar com os dedos me exteriorizo ao passo que se me ficasse pela facilidade e pelo facilitismo do Inglês não chegaria nunca aos posts da intimidade das últimas semanas). Alguém que conheci recentemente e que, por isso, não me conhece (bem), disse-me que a Blondewithaphd era um pseudónimo atrás do qual eu me escondia. Respondi que não, que a Blondewithaphd era um heterónimo, uma fabricação, uma personagem mas com base real. Nem uma coisa nem outra. A Blondewithaphd é um alter-ego, sou eu ao espelho, projectada au dehors, o meu reverso (obrigada M. por me ajudares a ver). Eu sou a Blonde fora de mim.

E o blog levou-me a mundos desconhecidos, os da minha psique, os da minha língua, permitiu-me a exteriorização das minhas opiniões (políticas, sociais, pessoais) num espaço anónimo, virtual e ilimitado. E, sobretudo, levou-me junto de gente: pseudónimos, heterónimos, ortonónimos e alter-egos como eu. Se o meu Ego se movimenta num mundo de gente concreta e real, também a Blondewithaphd circula num mundo de seres com consistência e personalidade, neste caso virtual, o que me leva a questionar se a virtualidade não é, afinal, uma instância da realidade (bem, mas isso já são cogitações de índole metafísica). Como é que posso demonstrar a gratidão que sinto por todas estas existências que rodeiam a Blonde e fazem parte de um círculo sócio-virtual que aqui se estabeleceu? Mas é isso, estou-vos sentidamente grata. Vocês fazem/fizeram parte de um ano sublime e, por conseguinte, fizeram-no tão mais sublime. Quem se materializou, quem gravita entre o virtual e o real, quem é apenas virtual: sublimes, todos.

Alongo-me. Permitam-me, apenas, um derradeiro agradecimento a quem levou a minha exteriorização a um patamar assustador, porém, também e sim, catártico. Confrontar-me com a minha língua, com a minha interioridade é, confesso, a domesticação de mundos ignotos, o "Mostrengo" do Fernando Pessoa por onde aprendi Português e que, por isso, domei (a duras penas, diga-se). Confrontar-me com a oralidade, o som das minhas palavras mais íntimas, sobretudo se pronunciadas por figuras saídas do mundo da Blondewithaphd para a realidade do Ego é, no mínimo eufemismo, estranho (muito). Ao PRD (acrónimo que aqui me visita mas cuja realidade se lê por extenso) esse agradecimento. (... e logo aquele texto...)

Que 2009 nos seja, a todos, SUBLIME.


P. S. 1 - O título do post é roubado de um poema do Wilfred Owen (1917) que o roubou, como é óbvio, de Horácio e que a Blonde fez o favor de descontextualizar.

P. S. 2 - Quinn dearest, you change names this year and you're gonna get one very pissed off Blonde!
P. S. 3 - Carol, Jo, Pumpkin, Josh, Implume, António, Tiago, Peter, Dante, Jedi Castanhinha you rock dudes! Luv ya!
P. S. 4 - Love to all in blogspace!

27 de dezembro de 2008

Um Novo Natal



Tranco portas e janelas e deixo a casa entregue aos favores da P. e do Spotty. Enfio malas e presentes na carrinha e parto. Tirando o bolo-rei da Garrett do Estoril e os Lebkuchen e Stollen, tudo neste Natal será diferente. Nada de nostalgias, o que importa é que estaremos juntos e, por isso, felizes naquela união inquebrantável de clã. Este ano cedo o lugar que usurpei da Mãe quando ela morreu.

Passei a ver o Pai como Homem no dia em que a Mãe partiu. Não imaginava que ele ainda estivesse apaixonado por Ela. Engraçado como nunca racionalizamos que os nossos pais vivem os sentimentos de homens e mulheres. Vi-o chorar às escondidas. Observei o seu desmoronar interior e percebi porque é que ele regressou à Alemanha: não queria que o víssemos como Homem e, dessa feita, foi para longe fazer um luto penoso que lhe custou um enfarte no dia de anos Dela. Escondeu de nós a sua fragilidade. Mais tarde soube que eles falavam objectivamente da morte Dela e isso encheu-me de um respeito enorme e triste por este homem, não pelo Pai, frio e metódico, mas pelo Homem com emoções e catástrofes interiores como qualquer homem.

No Dia de Natal saímos os dois. Deixámos o resto do clã entregue ao aconchego morno e plácido da tarde de Natal e fomos para a rua. Estaciono na Avenida da Liberdade; queremos ir a pé e vir até ao Cais das Colunas (claro que é do Pai que me vieram os genes desportistas!). Falamos. Falamos tanto. Estou tão bem ali a passear com Ele. Não me invade a privacidade. Entende-me sem precisar de o verbalizar. Falamos da Mãe. Sempre. Falamos em alemão e em português. Falamos do passado e do presente. Rimos. Sinto-me filha, a filha que não vê o Homem mas o Pai. Volto a ver o Pai e é tão especial ver o Pai, estar com o Pai ali no Rossio e pelas ruas de Lisboa.

Ainda me lembro da primeira vez que Ele me levou a Lisboa e de como me pediu para desenhar aquilo que mais me tinha chamado a atenção na cidade. Desenhei uma estátua e pombos, muitos, muitos pombos. Em Bremen havia esquilos e passarinhos nas praças e aqueles bandos de pombos eram uma coisa assustadora, mas, igualmente, muito curiosa aos olhos de uma miúda de seis anos.

Paramos para tomar alguma coisa. Apenas um tasco asqueroso está aberto na Baixa. Propriedade de imigrantes chineses, ali se congregam turistas, mais imigrantes chineses e uns pouquíssimos portugueses que, como nós, saíram à rua. É a globalização à minúscula escala lisboeta. Tomo um chá de jasmim e o Pai o de sempre: camomila e noto que Ele nunca perdeu certos estrangeirismos nos hábitos e na maneira de ser. Ali estamos, ambos vividos do Mundo, ambos estrangeirados eternos: o Pai e eu. E no entanto, já lá em baixo, junto ao Tejo, falamos do como gostamos de Lisboa apesar de todos os apesares. É noite escura e tempo de regressarmos.

Sinto-me pequenina outra vez. Como é bom ser filha, como é bom este Natal...

Dem Vati. Die stolze Tochter.

23 de dezembro de 2008

Feliz Natal!

A todos quantos por aqui passam: os fiéis e os ocasionais, os anónimos e os conhecidos, os que entram para falar e os que saem silenciosos, a quem aqui vem desde a primeira hora e a quem aqui chegou recentemente, a todos os votos de bem-aventurança próprios da quadra.

Um abraço cibernético da,
Blonde


P.S. - Perdoem o postalito ser alemão...

21 de dezembro de 2008

Do Enlevo e da Saudade

Acho que na vida o inesperado guarda-nos as melhores e mais transcendentes surpresas. Eu pensava que só ia ao cinema, mas depois..., depois veio o inesperado e quando dou por mim estou à porta do Museu do Fado aguardando que me venham buscar e sem saber bem o que me espera no resto do serão. Acho que me esperava o sublime da descoberta, mas isso eu só soube mais tarde.
A primeira vez que fui a uma casa de fados foi por obrigação com um grupo de alemães amigos do Pai. Uma estucha! Só canções tristes, mulheres trigueiras de olhos negros, desenganos. O fado inexorável que acorrenta o espírito português. Detestei. Os amigos do Pai acharam exótico. Pensei que nunca iria repetir a experiência. Até este Sábado e ao inesperado de convites à última da hora que, por delicadeza e porque toda a gente é simpática com quem se divorcia, não se negam. Juntei-me ao grupo de estranhos, todos apreciadores de fado, uns guitarristas, outros fadistas, um deles compositor que também toca guitarra para uma destas novas fadistas da nossa praça que leva o fado aquém e além-mar. Ainda lhe disse que gosto de Carlos do Carmo, com aquela voz culta e civilizada de lisboeta polido pela luz e pelo Tejo, e de Camané que só descobri porque cantou com os Humanos. Respondeu-me que eu gosto de fado fácil! Enfim, nada que os meus instintos pop não esperassem. Pedi, então, fado difícil.
Perdi-me no meio da música. Ouvi sem os meus preconceitos e dei por mim num mundo paralelo no Mondego, nas planícies andaluzes, ali naquelas ruas estreitas à sombra do Castelo e vi a lua reflectida no Tejo. Impossível não gostar.
Perguntei-lhe onde tinha estudado música. Não estudou, não sabe ler uma pauta. Perplexidade seria um eufemismo para descrever o que senti! Eu estudei música seis penosos anos e só tiro dois ou três acordes da minha viola (e sem dedilhar). Aliás, ninguém ali naquela sala estudou música. Todos aprenderam aprendendo, tocando uns com os outros. E que sons que tiram daquelas violas e daquelas guitarras! Aliás, quando experimentei tocar naquela guitarra que já viu os palcos deste mundo e do outro, saíram-me sons que jamais pensei fazer sair de uma guitarra. Da minha viola sai barulho, daquela sai música. Achei o fado uma coisa mágica. Guitarras que tocam a melancolia, gente que as toca de cor e sem partituras.
No fim, pedi que me cantassem o "Barco Negro", que fiquei a saber era uma canção de sanzala, proibida no Estado Novo, porque pai João apanhava com a chibata enquanto a mãe preta embalava o filho do senhor na casa grande. Cantaram-me a versão do David Mourão-Ferreira imortalizada pela Amália.
Perdi-me, mais uma vez, e desta entre lágrimas saídas não sei de onde e arrepios na espinha... Acho que isto é que deve ser a Saudade...

20 de dezembro de 2008

This Christmas

Just because I'm in the mood for Christmas, one of my favourite Christmas songs (actually not the favourite one even if it's Wham!, or better, George Michael). But a song full of happy and good memories and Christmas is a good and happy time.

Season's greetings everybody!

19 de dezembro de 2008

Warmest Thanks


Mudanças acarretam mudanças, e só pode ser assim. Ciclos que se fecham, ciclos que se abrem. A Blonde anda em mudanças, logo o Blonde também.

Acontece que a Blonde sem o Quinn, este novel Ferreira-Pinto, não teria dado esta cara lavada ao Blonde. Foi ele que fez a redecoração toda. Obrigada Quinn!!! É muito bom poder contar sempre contigo! És um excelente webmaster e um assessor e pêras! O meu primeiro amigo do mundo blog. Obrigada!

E tu Pequito, heterónimo, pseudónimo, personagem, já nem sei, obrigada por isto. És um exagerado! Mas, hey, exagera à vontade!

16 de dezembro de 2008

Catarse


Demorei dias até chegar aqui ao blog com isto. Devia? Não devia? Mas, hey, a Blonde sou eu e eu sou a Blonde. Por isso, devia à Blonde o vir aqui porque a Blonde vive extra- e intra-blogoesfera.

"Casar nos papéis e não na vida".
Esta frase escreveu o Joshua aqui neste mesmo blog, comentando com a sua vida um post da minha a propósito de Duran Duran e das paixonetas da pré-adolescência. Sem o saber, resumiu tudo. O tudo absoluto que, afinal, é tão fácil, tão simples. Procuramos as circunvoluções da linguagem e, no fim, a simplicidade diz tudo. O tudo absoluto.

"Casar nos papéis e não na vida".
Foi isso. Foi tão somente isso. Daí a distância, a fragilidade, o naufrágio consequente, adiado, mas omnipresente, omnipotente porque só o naufrágio era a solução. Tão simples também entender que o naufrágio era a solução.

"Casar nos papéis e não na vida".
E papéis foi tudo o que restou. Tão pouco. Tão insignificante. Papéis. Papéis que vão amarelecer, esboroar-se até não serem nada. Porque do "casar nos papéis e não na vida" resta apenas o nada.
"Casar nos papéis e não na vida".
Acaba por nem sequer ser triste, nem feliz, é neutro, incolor e inodoro. Triste seria "casar nos papéis e nunca viver". Mas não é o caso. A vida descasa-se. E nem os papéis vão sobrar.

"Casar nos papéis e não na vida".
Lapidar, meu caro Josh. A catarse. Tão simples. Tão serena. Tão redutora e, no entanto, tão abrangente. É isso. A melhor frase para descrever, para escrever o divórcio de uma Blonde. Estava à espera desta frase. Invejo-ta, aproprio-me dela e com ela aqui venho porque a Blonde sou eu.

Feliz com a frase. Feliz com a vida.